Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Marcela: a figura da mulher em um governo machista

A presença de Marcela Temer no cenário político soa anacrônica. Ela chegou para quebrar um ciclo de protagonismo feminino, no qual o modelo da mulher frágil havia sido paulatinamente substituído pela imagem da mulher à frente de cargos importantes


* Artigo escrito em parceria com a estudante de jornalismo Luiza Eiterer

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“Bela, recatada e do lar”. Três palavras que definem bem a visão conservadora do novo governo. Na grande imprensa, inúmeras matérias elevam a imagem de Marcela Temer como a primeira-dama dos vestidos caros, maquiagens impecáveis, boa mãe, esposa dedicada, “voluntária” em programas sociais, discursos em tons emotivos, como se essas características e atitudes representassem o ideal do sucesso feminino.

Marcela encarna a mulher frágil, incapaz de se virar sozinha. Além de não comparecer às reuniões do programa do qual é embaixadora, também foi proibida por seu marido de conceder entrevistas, ficando a palavra de assessores no lugar das suas. Enfim, o perfeito estereótipo “mulher da tradicional família brasileira”.

Mas quais seriam as causas de tais precauções em relação à jovem primeira-dama? Seria Marcela incapaz de falar por si mesma, ou ela é tão inocente a ponto de correr o risco de sucumbir a uma pergunta capciosa de um jornalista malicioso qualquer?

A presença de Marcela Temer no cenário político soa anacrônica. Ela chegou para quebrar um ciclo de protagonismo feminino, no qual o modelo da mulher frágil havia sido paulatinamente substituído pela imagem da mulher à frente de cargos importantes.

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Nos últimos anos, o Brasil presenciou a saudosa Marisa Letícia com sua luta para trazer as mulheres para a política e Dilma Rousseff ocupando a presidência da República. Cada vez mais, mulheres vinham chefiando pastas influentes do governo e tomado decisões que, de alguma forma, mudaram os rumos do país.

Este cenário certamente irritou os setores mais conservadores. O novo presidente, alçado ao poder, colocou a mulher novamente “em seu devido lugar”: o de ornamento, um mero acessório do marido.

Todavia, se a primeira-dama parece ser uma esposa submissa, a mesma postura não se aplica a outras questões. O jornal suíço Tagesanzeiger comparou Marcela Temer a Maria Antonieta, a rainha francesa que ostentava, enquanto o povo governado por seu marido passava fome.

A matéria do periódico destaca que a esposa de Michel Temer tem à sua disposição cinquenta empregados na residência oficial às custas do Estado, leva uma rotina de compras e viagens de luxo e é apontada como o reflexo de um governo que não concede protagonismo às mulheres.

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Marcela também solicitou algumas modificações na decoração feita por Oscar Niemeyer no Palácio da Alvorada (residência oficial do presidente da República).

Tapetes e carpetes vermelhos foram trocados (a primeira-dama não gosta dessa cor), móveis foram retirados e na varanda do palácio foi instalada uma tela de proteção como segurança para o filho do casal.

Apesar do regime republicano, Marcela pode ser considerada uma verdadeira “princesa contemporânea”. Seria cômico se não fosse trágico.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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