Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Tragédia capixaba

Apesar de trágicos, os recentes acontecimentos no Espírito Santos trazem uma oportunidade única para refletirmos sobre algumas questões inerentes à vida do ser humano em sociedade. Seríamos capazes de conviver harmonicamente com os nossos semelhantes sem que haja a necessidade de algum tipo de instituição repressora?


familias pmes.jpg

Nos últimos dias, os brasileiros têm assistido atônitos imagens de saques, depredações, tiroteios e queimas de ônibus que estão ocorrendo no Espírito Santo após o início da greve da polícia militar daquele estado.

Devido à ausência de segurança, na capital Vitória e nas principais cidades capixabas como Cachoeiro do Itapemirim, Guarapari e Vila Velha, escolas não estão funcionando, postos de saúde estão fechados e as pessoas evitam sair de suas casas com medo da violência que toma conta das ruas.

Não obstante, na grande imprensa e nas principais redes sociais circulam notícias de que bandidos estariam “migrando” para o Espírito Santo para assim poderem realizar livremente as suas atividades ilícitas.

Apesar de trágicos, estes acontecimentos trazem uma oportunidade única para refletirmos sobre algumas questões inerentes à vida do ser humano em sociedade. Seríamos capazes de conviver harmonicamente com os nossos semelhantes sem que haja a necessidade de algum tipo de instituição repressora?

saques.jpg

Ao longo da história, muitos pensadores se debruçaram sobre esta intrigante e complexa questão.

Na clássica explanação de Jean-Jacques Rousseau, o homem seria bom por natureza, sendo justamente o advento da civilização (sobretudo com a propriedade privada) o fator peremptório que rompeu com a bondade inerente ao homem em seu “estado selvagem”.

Por outro lado, Thomas Hobbes, no famoso livro “Leviatã”, afirma que os seres humanos são naturalmente inimigos. Daí a necessidade de mecanismos coercitivos (como a atuação da polícia, por exemplo) para garantir a mínima ordem social.

Pois bem, uma conclusão apressada e simplista apontaria que os perniciosos exemplos capixabas aqui mencionados corroboram cabalmente as teses de Hobbes em detrimento das ideias de Rousseau. Correto?

Todavia, esta temática é muito mais complexa e controversa.

image_large.jpg

Conforme a realidade social nos mostra, as causas da violência não estão diretamente ligadas à maior ou menor ação dos aparatos de segurança, mas à capacidade que uma determinada sociedade tem em prover aos seus membros o mínimo para viver dignamente, ou seja, fazer com que todos tenham as suas necessidades básicas suprimidas.

Se bastasse investir em mais repressão e em encarceramento em massa, os inúmeros gastos em segurança por parte do poder público já teriam trazido tranquilidade para os moradores das principais metrópoles brasileira. Infelizmente, nada mais falacioso e longe da realidade.

Caso tivéssemos uma população instruída, com os direitos constitucionais garantidos, com amplo acesso à saúde, moradia digna e, sobretudo, se os valores capitalistas que privilegiam o acúmulo de bens materiais não fossem predominantes em nossa sociedade cada vez mais competitiva, cenas lamentáveis como as que constatamos no Espírito Santo dificilmente ocorreriam.

Se uma sociedade harmônica, que dispense qualquer tipo de aparelho coercitivo como o Estado, manicômios ou a própria polícia talvez ainda pareça um sonho muito distante, para o momento é preciso redefinir prioridades e rever paradigmas (como o consumismo desenfreado que levou pessoas freneticamente a saquearem estabelecimentos comerciais).

Mais investimentos em escolas e professores garantem um futuro com menor necessidade de despesas em repressão. Como já dizia Pitágoras há milênios: “educai as crianças e não será preciso punir os homens”.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/sociedade// @obvious //Francisco Ladeira
Site Meter