Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Um ano extremamente complicado

Para quem acreditava que poderia comemorar o fim de 2016 no dia 31 de dezembro, a aprovação da PEC 55, que congela os investimentos sociais do governo brasileiro por vinte anos (ironicamente na mesma data em que foi decretado o AI-5 em 1968), fará com que 2016 termine, de fato, somente daqui a duas décadas.


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Poderia ser 1937, ocasião em que Getúlio Vargas implantou o Estado Novo. Poderia ser 1954, quando o próprio Vargas, pressionado por forças conservadoras, cometeu suicídio. Poderia ser 1964 e a tomada do poder pelos militares com o apoio de setores influentes da sociedade civil. Mas foi 2016.

Em pleno século 21, quando todos consideravam que havia minimamente uma democracia no Brasil, um novo Golpe de Estado derrubou a presidenta Dilma Rousseff para reintroduzir a nefasta e antipopular agenda neoliberal que vigorou no país durante a década de 1990.

Não obstante, ao longo do ano houve várias tentativas de criminalizar o ex-presidente Lula e inviabilizá-lo para a próxima eleição presidencial: intensa campanha de difamação midiática, delações, condução coercitiva e acusação pelo Ministério Público Federal com power point.

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Em um ano marcado por crises de todos os tipos, importantes unidades federativas, como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais decretaram estado de calamidade financeira.

Na esfera esportiva, o ano olímpico foi ofuscado pela tragédia com o avião que transportava o time da Chapecoense, que originou setenta e um mortos entre atletas, membros da comissão técnica, dirigentes e jornalistas. Apenas seis pessoas sobreviveram esta tragédia. Em maio, um caso de estupro coletivo contra uma adolescente carioca chocou o país.

A música perdeu David Bowie, Prince, Cauby Peixoto, Vander Lee, George Michael, entre outros influentes nomes. A poesia ficou sem os versos de Ferreira Goulart. Aintelectualidade perdeu os escritos de Umberto Eco. O humor ficou mais triste sem Rubén Aguirre, o “Professor Girafales”. E o boxe se despediu do engajado lutador Muhammad Ali.

Nas redes sociais, não faltaram frases negativas para definir 2016: “o ano que não deveria ter existido”, “pior ano do século”, “um ano para esquecer”, “ano que não vai deixar saudades”. Segundo a Folha de S. Paulo, 2016 é o “ano que parece não ter fim”.

No cenário internacional, a geopolítica da América Latina foi marcada pela morte do líder cubano Fidel Castro, pelas tentativas de acordo entre o governo colombiano e as Farc (o que valeu o Prêmio Nobel da Paz para o presidente Juan Manuel Santos), o início do governo Macri na Argentina e a suspensão da Venezuela do Mercosul. Na Turquia houve uma tentativa de Golpe Militar contra o presidente Erdogan. A presidenta da Coreia do Sul,Park Geun-Hye, sofreu um processo de impeachment.

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Na Síria, o governo de Assad retomou a importante cidade de Aleppo, há anos sob o domínio de grupos rebeldes (apoiados, em sua maioria, por potências ocidentais, diga-se de passagem). Os antagonismos entre imperialismo ocidental e o radicalismo muçulmano foram destaque com atentados terroristas na Bélgica, Estados Unidos, França e Alemanha.

Nos Estados Unidos, contrariando todos os prognósticos dos institutos de pesquisa, o polêmico Donald Trump foi eleito presidente. Após um referendo, a população do Reino Unido decidiu pela saída do país da União Europeia. Em plebiscito, os italianos rejeitaram a maior reforma constitucional no país desde 1948, fato que, para muitos analistas, pode significar um passo importante para a desintegração do Euro. Definitivamente, o ano que recém-terminado também não foi bom para o processo de globalização.

Já para quem acreditava que poderia comemorar o fim de 2016 no dia 31 de dezembro, a aprovação da PEC 55, que congela os investimentos sociais do governo brasileiro por vinte anos (ironicamente na mesma data em que foi decretado o AI-5 em 1968), fará com que 2016 termine, de fato, somente daqui a duas décadas.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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