Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

A geopolítica da Copa do Mundo

A Copa do Mundo não está imune à condicionantes externos. Em 1942 e 1946, por exemplo, não houve o torneio justamente em virtude da Segunda Grande Guerra. O futebol, esporte mais popular do planeta, influencia e, como não poderia deixar de ser, também é influenciado pela sociedade.


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Muitos cronistas esportivos, sobretudo aqueles mais conservadores como Thiago Leifert, costumam afirmar que futebol e política não se misturam em hipótese alguma.

No entanto, a Copa do Mundo FIFA, ao longo de sua quase centenária história, iniciada em 1930, geralmente foi influenciada pelo contexto geopolítico vigente.

No terceiro mundial, realizado na França em 1938, antes da decisão entre Itália e Hungria, que daria o bicampeonato mundial aos italianos, o ditador fascista Benito Mussolini enviou seu famoso telegrama “Vincere o morire!” ao capitão da Azzurra, Giuseppe Meazza.

Ou seja, a vitória italiana seria benéfica para o regime do Duce.

Do mesmo modo, nos anos 1970, os governos militares de Emílio Garrastazu Médici e Jorge Videla, presidentes de Brasil e Argentina, respectivamente, se apropriaram dos títulos de suas seleções para fazer propaganda político-ideológica.

“Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção!”

Não bastassem os dividendos políticos, o ditador Médice influenciou na própria formação da seleção que conquistaria o tricampeonato, ao impor o nome de Dario entre os convocados.

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Já nas duas copas disputadas em nosso país, em 1950 e 2014, setores da oposição direitista tentaram boicotar o mundial com o intuito de atacar os governos de Getúlio Vargas e Dilma Rousseff.

Nesse sentido, ainda está bastante presente em nossa memória a retrógrada campanha “Não vai ter Copa!” de quatro anos atrás.

Os resquícios do colonialismo europeu na África e as grandes ondas migratórias globais também estão presentes nos mundiais de futebol.

Eusébio, craque português na Copa de 1966, nasceu em Moçambique.

Até hoje, esta é a melhor campanha da seleção de Cristiano Ronaldo em mundiais.

A França ganhou sua única taça com uma seleção formada basicamente por descendentes de imigrantes africanos.

Zidane, o maior nome daquela equipe, é filho de argelinos.

Já a Alemanha, atual campeã, conta com descendentes de turcos, senegaleses, espanhóis, tunisianos e ganeses em seu elenco.

Uma verdadeira miscelânea cultural que deixaria estarrecido Hitler, com seus delírios sobre uma suposta raça pura.

Por falar em Alemanha, dois dos quatro títulos mundiais da nação europeia surgiram em contextos históricos emblemáticos: em 1954, quando o país ainda se recuperava dos prejuízos gerados pela Segunda Guerra Mundial; e em 1990, apenas um ano depois da queda do Muro de Berlim, um dos símbolos da Guerra Fria.

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As escolhas de África do Sul, Brasil e Rússia como países-sedes dos três últimos mundiais confirmam a importância dos BRICS no atual contexto político global.

Não obstante, a ascensão da Rússia como importante ator geopolítico tem incomodado as principais potências globais.

Nesse sentido, não é por acaso que está em curso uma grande campanha mundial em boicote a Copa de 2018.

Em uma comparação absolutamente grotesca e descabida, o secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, Boris Johnson, afirmou que “a Rússia de Putin tentará utilizar a Copa do Mundo de 2018 para reforçar sua imagem da mesma maneira que a Alemanha de Hitler utilizou os Jogos Olímpicos de 1936, realizados em Berlim”.

São os antagonismos geopolíticos se refletindo fortemente na esfera esportiva.

Entretanto, em algumas ocasiões, o futebol também pode subverter simbolicamente um determinado contexto das relações internacionais.

Os Estados Unidos, grande potência global, estão muito distantes de ser uma força futebolística.

Nem irão à Rússia este ano.

China e Japão, respectivamente segunda e terceira maiores economias do planeta, são praticamente inexpressivos no futebol.

Assim como os yankees, os chineses não jogarão em gramados russos e os japoneses provavelmente não serão protagonistas na Copa.

No entanto, o fato de não ser potência no secular esporte bretão, não impediu o imperialismo estadunidense de tentar intervir no futebol de mundial, a partir de investigações da CIA sobre dirigentes ligados a federações nacionais e a FIFA.

Por outro lado, a épica vitória da Argentina, de Diego Maradona, contra a Inglaterra, de Gary Lineker, na Copa do México em 1986 – com dois gols de Maradona, o primeiro com a mão e o segundo driblando praticamente todo o time inglês – representou uma espécie de revanche argentina pela derrota na Guerra das Malvinas, ocorrida apenas quatro anos antes da realização da partida.

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Em suma, a Copa do Mundo não está imune à condicionantes externos.

Em 1942 e 1946, por exemplo, não houve o torneio justamente em virtude da Segunda Grande Guerra.

O futebol, esporte mais popular do planeta, influencia e, como não poderia deixar de ser, também é influenciado pela sociedade.

Um título mundial ou uma derrota humilhante podem ajudar a eleger governos, depor presidentes e contribuir para diminuir ou aumentar a autoestima de uma toda uma nação, como foram os casos das Copas do Mundo de 1950 (quando o Brasil perdeu a triangular final, em casa) e 1958 (ano em que a seleção tupiniquim conquistou o seu primeiro título, na longínqua Suécia).


Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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