Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

A POLÍTICA COM POUCAS OPÇÕES DE RESPOSTAS DIANTE DA GREVE E AS TENTATIVAS DE DETERMINADAS IDEOLOGIAS DE SE APROPRIAR DO MOVIMENTO DOS CAMINHONEIROS

Este artigo faz uma reflexão sobre como determinadas pautas podem ser “aproveitadas” ideologicamente, além de apresentar algumas questões sobre a postura do governo federal diante da greve dos caminhoneiros.


Artigo escrito em parceria com a mestranda em Estudos da Linguagem pela UEL, Kauana Scabori dos Santos

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Sem sombra de dúvida, a greve dos caminhoneiros é o assunto mais debatido no Brasil e no exterior (conforme aponta o canal internacional de televisão Euronews). E deixa para segundo plano, pelo menos por enquanto, questões como a sucessão presidencial, prevista para o próximo mês de outubro e a Copa do Mundo da Rússia, a qual terá início em poucos dias. Termos ligados aos recentes acontecimentos, como “locaute”, “Pedro Parente” e “diesel” atingiram o “pico de popularidade” no Google Trends, isto é, tiveram o seu número máximo de pesquisas no Google desde 2004.

Não há como ficar alheio a esse movimento, pois ele atinge a todos nós, direta e indiretamente, pois as prateleiras de muitos mercados encontram-se vazias, principalmente de hortaliças e frutas, sem mencionar a falta de combustível em diversos postos de gasolina.

Praticamente todos os brasileiros têm um posicionamento diante da greve, alguns mencionam o fato de ser injusto a população ser sacrificada pela greve de uma única classe, bem como destacou a Rede Globo, entre outras por meio dos noticiários.

E por outro lado, há uma parcela considerável, a qual apoia o movimento dos caminhoneiros em prol da redução de alguns impostos, inclusive do combustível.

Para alguns analistas, a greve é um “locaute”, isto é, um movimento convocado por donos de transportadoras. Já outra linha interpretativa aponta que a mobilização atende reivindicações legítimas de um setor da classe trabalhadora.

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Não cabe aqui uma reflexão aprofundada sobre os reais motivos da greve, tampouco apresentar algum tipo de juízo de valor sobre o que está ocorrendo nas rodovias brasileiras.

Qualquer tipo de posicionamento mais conclusivo, no “calor dos fatos”, seria precipitado e temerário.

Pretendemos, neste artigo, refletir sobre como determinadas pautas podem ser “aproveitadas” ideologicamente, além de apresentar algumas questões sobre a postura do governo federal diante da greve dos caminhoneiros.

Deste modo, diante de tal cenário, para alguns economistas, a greve apresenta uma boa oportunidade de comprar ações a um preço reduzido, uma vez que as ações no mercado financeiro não tiveram o mesmo impacto da lei de procura e oferta.

A coluna “De grão em grão”, escrita à Folha de São Paulo, destaca como a greve pode afetar os investimentos, seja em CDI, seja nos investimentos de maiores riscos. O professor de finanças Michel Viriato, do Insper, salienta que: “Enquanto a atenção do brasileiros (sic.) está voltada para alta dos preços de perecíveis, a queda dos ativos financeiros que pode trazer oportunidades duradoras parece relevada. [...] No entanto, para quem não possui qualquer investimento em ações, mas tem perfil diferente de conservador, pode aproveitar para alocar uma pequena parcela em fundos de ações pagadoras de dividendos. [...] Entretanto, a queda nos preços também merece atenção para aproveitar oportunidades.”

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Mas, será que ao pensarmos a médio e longo prazo o lucro é realmente tão vantajoso assim? Qual o preço de lucrar ou conseguir vantagens diante de um país, o qual caminha de um extremo ao outro?

Então, quais interesses esses economistas atendem? E qual a vantagem para a população ter preços dos combustíveis que seguem a tendência mercadológica?

Já as redes sociais desempenham papéis ambíguos nesse contexto: reverberam tanto informações importantes, quanto fake News; alertam a população sobre o que vem ocorrendo, mas também podem espalhar pânico e desentendimento das informações.

Outras questões que podemos destacar são as tais manifestações “apartidárias”. Mobilizações "neutras", "contra a corrupção", "sem sindicato", "sem bandeiras" não representam a classe trabalhadora, mas a elite econômica.

Quem está por trás disso? Um dos motores da ideologia é justamente esse: fazer com os que os interesses de determinados estratos da população sejam percebidos como se fossem os interesses da coletividade.

Há vários movimentos on-line para convocar o povão com a finalidade de engrossar determinados grupos. Com o objetivo atingido, possivelmente, o povo pode ser expulso, como ocorreu, por exemplo, na Revolução Francesa, quando a burguesia recorreu aos camponeses em sua luta contra a aristocracia.

As chamadas “jornadas de junho de 2013”, em seu início reivindicavam demandas populares – como o preço da passagem de transporte coletivo urbano – e, após serem sequestradas por setores conservadores, foram o estopim para o processo social que trouxe uma crescente radicalização da sociedade com o fortalecimento de grupos com tendências fascistas também nos fornecem um exemplo de mobilizações populares que tomaram um rumo reacionário.

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Diante do complexo e conturbado cenário criado após os desdobramentos da greve dos caminhoneiros, o governo (impopular) de Michel Temer encontra-se num beco sem saída e, se o presidente reprime violentamente o movimento grevista ele ficará ainda desgastado diante da população (em geral favorável às ações dos caminhoneiros).

Caso não insurja nas manifestações ou opte por ceder completamente à demanda dos grevistas perderá sua “autoridade”, algo absolutamente perigoso para um governo extremamente instável diante do cenário de greve. A política “sem reposta” do governo deve-se muito a esse impasse.

Para finalizar este artigo nós levantamos alguns questionamentos sobre os rumos incertos das mobilizações: abrirão caminho para uma reforma tributária justa?, contribuirão para depor o atual governo de Michel Temer?, poderão ser o início de um período de grande conscientização popular brasileira diante de juros abusivos ou necessários para manter a economia no azul?, serão apropriadas pelos setores conservadores (assim como as chamadas jornadas de junho de 2013)? ou, o pior dos cenários possíveis, poderão ser utilizadas como pretexto para mais um golpe militar?


Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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