Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Atavismo social

Se, em outras épocas, as pessoas acreditavam que no limiar do século 21 estaríamos discutindo sobre carros voadores ou colhendo os benefícios de uma sociedade em que não houvesse mais a exploração do homem pelo homem; a realidade nos tem mostrado a necessidade de explicar questões extremamente óbvias como o nazismo ser de extrema-direita, a existência de um golpe miliar no Brasil em 1964, o formato de nosso planeta e a existência da Lei da Gravidade


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Nos estudos biológicos, o termo “atavismo” se refere à uma reminiscência evolutiva, com o reaparecimento de uma certa característica no organismo, depois de várias gerações de ausência. Em outros termos, “atavismo” corresponde a um tipo de “retrocesso” no processo da evolução de uma espécie.

Transpondo esse conceito para a história humana, podemos afirmar que nos últimos anos também temos presenciado inúmeros retrocessos, ou um “atavismo social”, pois determinadas práticas, ideias e preconceitos que pareciam já ter sido superados há tempos ressurgiram com grade intensidade e tem angariado um número cada vez maior de adeptos.

Conforme demonstra a atual onda de linchamentos, muitos indivíduos apregoam a necessidade de se fazer “justiça com as próprias mãos”, à revelia de provas ou direitos constitucionais; o que significa, na prática, o ressurgimento da chamada Lei de Talião, ou seja, um considerável recuo no processo civilizatório.

Nessa mesma linha de retorno à barbárie, embora a Organização Mundial de Saúde (OMS) tenha deixado de considerar a homossexualidade como doença há três décadas; parlamentares, entidades religiosas e até mesmo psicólogos insistem em promover a chamada “cura gay”, como se a orientação sexual de alguém pudesse ser “revertida” através de um determinado “tratamento”.

Já alguns conhecimentos científicos corroborados há séculos, como o heliocentrismo e a Lei da Gravidade, passaram a ser contestados pela “Teoria da Terra Plana”; que, conforme a nomenclatura já indica, parte do pressuposto de que o formato de nosso planeta não é geoide, mas plano.

Assim, basta ter um perfil em uma rede social para “refutar” as ideias de Copérnico, Newton, Einstein, entre outros pensadores.

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As falsificações históricas também estão presentes nessa época de “atavismo social”. Uma simples leitura do livro Mein Kampf, de Adolf Hitler, é suficiente para constatar todo o ódio nazista às ideias comunistas e à esquerda política de maneira geral.

No entanto, muitos indivíduos insistem em qualificar o nazismo como um regime de extrema-esquerda, utilizando, como principal argumento, não um embasamento bibliográfico, mas o fato de o Partido Nazista ter a palavra “socialista” em sua nomenclatura. Nessa mesma linha de raciocínio, podemos concluir que o peixe-boi é um bovino ou o cavalo-marinho é um equino.

Não obstante, mesmo com as afirmações de todos os historiadores sérios sobre o golpe de 1964 e a posterior ditadura militar que durou duas décadas, muitos ainda insistem em afirmar que não houve um golpe contra o governo de João Goulart ou tampouco vigorou um regime ditatorial no Brasil.

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Se, em outras épocas, as pessoas acreditavam que no limiar do século 21 estaríamos discutindo sobre carros voadores ou colhendo os benefícios de uma sociedade em que não houvesse mais a exploração do homem pelo homem; a realidade nos tem mostrado a necessidade de explicar questões extremamente óbvias como o nazismo ser de extrema-direita, a existência de um golpe miliar no Brasil em 1964, o formato de nosso planeta e a existência da Lei da Gravidade. Seria cômico, se não fosse trágico.


Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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