Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Coxinha, um ator social sumido do espaço público?

O coxinha classe média que não queria os pobres em aeroportos, agora encontra com eles em rodoviárias. Perdemos direitos duramente conquistados, mas pelo menos tiramos o PT.


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No espaço público brasileiro, um ator social que (literalmente) fez bastante barulho nos últimos anos encontra-se, atualmente, em vias de extinção.

Trata-se do coxinha: indivíduo de classe média que, manipulado pela elite econômica, assistia ao Jornal Nacional, se revoltava (seletivamente) contra a corrupção, aplaudia as ações autoritárias de alguns juízes, batia panelas nas aparições televisivas da ex-presidenta Dilma Rousseff, escrevia "textões" indignados nas redes sociais e, aos domingos, vestia a camisa da (corrupta) CBF e ia para a Paulista (ou qualquer outra avenida do Brasil) tirar selfies com policiais e "protestar" contra o "governo petralha".

Embora o coxinha seja uma figura presente em toda a história brasileira (no período escravocrata ele provavelmente diria que reivindicar a libertação dos negros era mimimi de esquerdopata), foi somente a partir das chamadas "jornadas de junho de 2013" que a versão contemporânea do coxinha ganhou visibilidade nacional.

Conforme aponta o sociólogo Jessé Souza, a mídia brasileira se aproveitou da grande mobilização popular em todo o país para "federalizar" as manifestações que até então estavam centradas em questões municipais (como o preço da passagem de transporte coletivo urbano), direcionando a revolta popular para o governo Dilma Rousseff.

Uma década de PT no poder era demais para a classe média coxinha. Como o Brasil pôde ser comandado por um "nordestino analfabeto" e depois por uma "guerrilheira comunista"?

Além do mais, o PT ajudou a promover a ascensão econômica de extratos inferiores da pirâmide social. "Aí já é demais! Pobres em aeroportos, pretos em universidades. Para onde vão meus privilégios de classes?", indagou o coxinha.

No entanto, prossegue Jessé Souza, o coxinha não poderia dizer que odeia o PT porque o partido ajudou o pobre de alguma maneira.

Não fica bem explicitar o ódio classista assim. Portanto, era preciso criar um álibi para a empreitada antipetista.

Eis que surge uma velha pauta moralista da classe média: a corrupção.

Porém, na mente coxinha, a corrupção só existe no Estado (pois na iniciativa privada só atuam cidadãos honestos) e, especificamente, nos governos petistas.

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A Operação Lava Jato, iniciada em março de 2014, foi a cereja do bolo coxinha.

Naquele mesmo ano, no segundo turno das eleições presidenciais, os coxinhas se uniram para eleger Aécio Neves.

Como sabemos, Dilma foi reeleita. Entretanto, isso não impediu o ímpeto coxinha.

Apesar de perder a eleição para o poder executivo, a direita brasileira ainda comandava o congresso, a mídia e o judiciário. Começava a ser arquitetado mais um golpe de Estado no Brasil.

Contudo, todo processo de ruptura democrática que se preze deve ter um verniz popular. O povão não é contra os governos petistas. Logo seria difícil mobilizá-lo. A elite econômica ir para as ruas protestar? Nem pensar, isso não é chique. Então, quem daria o verniz popular ao golpe? É claro, a classe média coxinha: tradicional tropa de choque dos ricos.

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Concretizado o golpe, o PMDB (que agora usa o eufemismo MDB), talvez um dos partidos mais fisiologistas do planeta, assume o poder.

O que se viu desde então foram as práticas mais nefastas possíveis: compra de parlamentares, nomeação de ministros de condutas duvidosas, perdas de direitos trabalhistas, congelamento de gastos sociais e vazamento de áudio do presidente da República em situação constrangedora.

Não obstante, uma das primeiras medidas do governo Temer foi "legalizar" as chamadas "pedaladas fiscais", o "motivo" alegado para o impeachment de Dilma Rousseff.

Diante desse quadro mórbido, esperava-se que o coxinha, guardião da moralidade pública, prontamente se levantasse contra o governo Temer.

Ledo engano. O coxinha, assim como uma criança tutelada, não consegue se mover sem a convocação da grande mídia. As panelas que outrora batiam compulsivamente, agora estão em silêncio.

Salário mínimo abaixo da inflação? O coxinha faz ouvido de mercador. Altas nos preços dos combustíveis e do gás de cozinha? A culpa é do Lula.

Nomeação de ministra do trabalho que desrespeita direitos trabalhistas? Se fosse no governo do PT, o país pegaria fogo. Aécio Neves flagrado pedindo dinheiro a Joesley Batista? Não tenho bandido de estimação (mas usava camisa com a frase "A culpa não é minha, eu votei no Aécio").

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Com o desastroso governo Temer, a maioria dos coxinhas tem evitado falar sobre política partidária, voltando-se para temas moralistas como "pedofilia em museus", "ditadura gayzista" e "feminazis".

Mudam-se os assuntos, mas os posicionamentos delirantes são os mesmos. Envergonhados, muitos coxinhas criaram perfis fakes nas redes sociais para anonimamente poder atacar quem pensa diferente.

Outros, mais extremistas, têm se concentrado na candidatura de Jair Bolsonaro (o "mito") para a presidência.

Os poucos coxinhas que ainda debatem sobre política limitam-se a alguns comentários aloprados na internet. Porém, não admitem que também têm parcela de culpa pelo cenário caótico no qual o Brasil se encontra.

Muitos insistem no falacioso argumento de quem votou na Dilma também votou no Temer. Inacreditavelmente, querem acusar aqueles que foram "contra o golpe" pelo "golpe".

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O coxinha classe média que não queria os pobres em aeroportos, agora encontra com eles em rodoviárias.

Perdemos direitos duramente conquistados, mas pelo menos tiramos o PT. Seria cômico se não fosse trágico.

Enfim, a campanha coxinha nunca foi contra a verdadeira corrupção, mas contra a (tímida) mobilidade social do pobre.

Mais do que exemplo de analfabetismo político, o coxinha, seguidor do pato amarelo da FIESP, provavelmente também é um caso psiquiátrico.


Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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