Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Deus salve o rei e a estigmatização do negro em telenovelas

Telenovelas são excelentes mecanismos para difundir tacitamente uma determinada visão de mundo. Lembrando um conceito criado pelo pensador marxista Louis Althusser, a mídia, como aparelho ideológico de Estado, está a serviço dos interesses da classe dominante. Portando, não é “mera coincidência” que a Rede Globo de Televisão reproduza cotidianamente em sua programação os valores classistas e racistas que norteiam a sociedade brasileira


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Telenovelas são excelentes mecanismos para difundir tacitamente uma determinada visão de mundo.

As principais tramas da Rede Globo, por exemplo, geralmente são utilizadas para reverberar posições conservadoras.

No entanto, em ocasiões pontuais, alguns enredos ou personagens também podem transmitir ideias progressistas.

Na novela “Renascer”, exibida na primeira metade da década de 1990, personagens como Tião da Galinha Preta e Padre Lívio (o “padre comunista") chamavam a atenção para questões importantes como as contradições entre capital e trabalho, reforma agrária e a imposição do celibato para sacerdotes da Igreja Católica.

Ainda nos anos 90, “O Rei do Gado” levava o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) para o horário nobre da televisão brasileira.

Todavia, uma questão bastante controversa ainda presente nas telenovelas globais se refere aos papéis desempenhados por atores negros, comumente associados a antigos estereótipos como a “mulata sensual”, o “bandido” ou o “negro malandro”; e a profissões consideradas socialmente inferiores, como empregadas domésticas, motoristas e jardineiros.

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Recentemente, a atual novela das 19 horas, “Deus Salve o Rei”, sofreu inúmeras críticas pela falta de atores negros em seu elenco.

Conforme apontou o blogueiro Tony Goes, em artigo escrito na semana em que a novela estreou, a única personagem negra é uma mulher que vive isolada na floresta.

Curandeira e vidente, ela não escapa dos papéis estigmatizados que cabem aos atores negros.

Por sua vez, os defensores da atração global argumentaram que tal ausência étnica se deve ao fato de a trama se passar em reinos fictícios da Idade Média, provavelmente localizados no continente europeu, que, na época, abrigava pouquíssimos habitantes negros.

Pois bem, no período medieval também ainda não existia o sotaque carioca, fator que não impede a protagonista Catarina (vivida pela atriz Bruna Marquezine, em uma interpretação demasiadamente mecânica) de abusar do “carioquês”.

Mas, como nos últimos anos a Rede Globo tem se orgulhado de “contemplar” a diversidade brasileira em sua programação, eis que surge mais um personagem negro em “Deus Salve o Rei”.

Trata-se do misterioso Emídio, interpretado por Rogério de Brito. O personagem entrou na trama como tio de Levi, menino criado pelo casal de protagonistas Afonso e Amália.

O papel de Rogério, longe de representar qualquer diversidade, vem a reforçar estereótipos tradicionalmente relacionados aos negros na sexagenária televisão brasileira.

Seguindo o típico maniqueísmo de novelas globais, Emídio possui somente características negativas: é dissimulado, calculista, traiçoeiro e disposto a fazer qualquer coisa por dinheiro.

O capítulo que foi ao ar na sexta-feira (16/3) ilustra emblematicamente os antagonismos entre o “herói branco” e o “vilão negro”. Em uma cena, o protagonista Afonso descobre que Emídio sequestrava crianças e jovens e, posteriormente, os levava para trabalhos forçados em minas.

Constatando o fato, Afonso parte para cima de Emídio e os dois trocam socos. Por fim, Afonso, “vitorioso” no confronto, dá uma lição de moral em Emídio: “Você tem até o fim do dia para deixar Montemor [...] porque se eu encontrá-lo novamente, não me responsabilizarei pelos meus atos”.

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Em suma, o negro é pouco representado em telenovelas, e, quando aparece, geralmente desempenha papéis negativos.

Não se trata de “mimimi politicamente correto”, ou algo similar, mas é importante ressaltar que a mídia, sobretudo telenovelas, é um poderoso parâmetro de identificação subjetiva.

Enquanto brancos se veem representados em papéis de destaque, como “cidadãos de bem”; os negros, infelizmente, se “acostumaram” com os seus semelhantes como antagonistas, os representantes do “mal”.

Lembrando um conceito criado pelo pensador marxista Louis Althusser, a mídia, como aparelho ideológico de Estado, está a serviço dos interesses da classe dominante.

Portando, não é “mera coincidência” que a Rede Globo de Televisão reproduza cotidianamente em sua programação os valores classistas e racistas que norteiam a sociedade brasileira.


Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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