Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Greve dos caminhoneiros e a relatividade da influência midiática

Este artigo aborda a relatividade da influência midiática sobre o público, utilizando a repercussão sobre a paralisação dos caminhoneiros como exemplo analítico.


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A greve dos caminhoneiros é, sem sombra de dúvida, o assunto mais debatido do país no momento, deixando para segundo plano, pelo menos por enquanto, questões como a sucessão presidencial, prevista para o próximo mês de outubro; e a Copa do Mundo da Rússia, que se iniciará em poucos dias.

Para alguns analistas, a greve é um “locaute”, isto é, um movimento convocado por patrões.

Já outra linha interpretativa aponta que a mobilização atende a reivindicações legítimas da classe trabalhadora.

Não cabe aqui uma reflexão aprofundada sobre os reais motivos da greve, tampouco apresentar algum tipo de juízo de valor sobre o que está ocorrendo nas rodovias brasileiras.

Qualquer tipo de posicionamento mais conclusivo, no “calor dos fatos”, seria precipitado e temerário.

Desse modo, o objeto deste artigo é verificar a relatividade da influência exercida pela grande mídia, sobretudo da Rede Globo de Televisão, sobre o público de maneira geral.

Em outros termos, pretendo tecer breves comentários sobre a complexa relação entre emissor e receptor, utilizando a repercussão sobre a paralisação dos caminhoneiros como exemplo analítico.

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Segundo Adorno e Horkheimer, primeiros pensadores a realizar análises mais sistemáticas sobre o processo de comunicação de massa, os meios de comunicação moldam e direcionam as opiniões de seus receptores.

Assim, fomentou-se a concepção de que a mídia seria capaz de manipular incondicionalmente uma audiência submissa, passiva e acrítica.

Por outro, para os pensadores da corrente designada genericamente como “Teorias da Recepção”, as mensagens transmitidas pelos grandes veículos de comunicação não são recebidas automaticamente e da mesma maneira por todos os indivíduos.

Na maioria das vezes, o discurso midiático perde seu significado original na controversa relação emissor/receptor.

Consequente, um receptor só aceitará um determinado discurso se este estiver de acordo com as suas convicções.

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Pois bem, após as observações acima, voltemos às reflexões sobre a repercussão gerada pela paralisação dos caminhoneiros.

A greve dos caminhoneiros – devido ao caráter complexo do movimento, que abriga desde conservadores que pedem intervenção militar a trabalhadores realmente conscientes e engajados –, atraiu o apoio de amplos setores da população: tanto à direita quanto à esquerda.

Por sua vez, a mídia hegemônica, capitaneada pela Rede Globo, se posicionou claramente contrária à paralisação dos caminhoneiros (pelo menos após as supostas negociações com os grevistas anunciadas pelo governo), através das manipulações rotineiras, em que as demandas do movimento são ocultadas e, em contrapartida, são ressaltados os “transtornos” causados pela paralisação dos caminhoneiros, como a falta combustível, a carência de alimentos e o “caos” no transporte público.

No entanto, parcela considerável da população (inclusive aquela que habitualmente concorda com os discursos conservadores da Rede Globo) demonstrou ser favorável ao movimento dos caminhoneiros, pelos mais variados motivos.

Muitos desses indivíduos, inclusive, têm se manifestado efusivamente contra a Globo, por meio de postagens nas redes sociais.

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Diante dessa realidade, alguns questionamentos podem ser levantados.

O que teria ocorrido? Só agora perceberam que a Globo manipula informações sobre movimentos grevistas? Será que mudarão de postura após o posicionamento da Globo sobre o próximo grande acontecimento nacional, se este novamente for de encontro com a sua ideologia? Ou será que canalizarão essa repulsa à Rede Globo para um posicionamento crítico definitivo em relação à mídia? Essa aversão à Rede Globo é passageira?

São perguntas relevantes, porém difíceis de responder.

Talvez o amplo apoio de membros da classe média ao movimento dos caminhoneiros venha de motivações estritamente pessoais.

Com a paralisação de boa parte das estradas, bens de consumo começam a faltar no cotidiano, principalmente o combustível essencial para abastecer o principal fetiche dos estratos medianos da população: o automóvel.

Isso explica, por exemplo, o porquê de o mesmo indivíduo que estampa “somos todos caminhoneiros” em seu perfil virtual, ser indiferente às paralisações similares de outras categorias, como os professores, que não “produzem riquezas materiais”, não interferindo assim no cotidiano da classe média.

Portanto, não haveria nenhum tipo de altruísmo nesse apoio a greve (o que não descarta, evidentemente, que existam adesões legítimas e embasadas).

Já a relação entre público e Globo é ambígua: o mesmo conservador que aplaude o ataque seletivo da emissora carioca a determinados políticos, com o objetivo de deslegitimar certas legendas partidárias e resguardar outras; “acusa” a Globo de “comunista”, por “incentivar” comportamentos que destroem a “tradicional família brasileira”, como o “casamento gay”.

Como disse um amigo, esse mal-estar entre conversadores e Globo é temporário: “é só a Globo começar a falar mal do Lula de novo que a relação volta ao normal”.

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Em suma, a realidade nos mostra que as consequências das mensagens divulgadas pelos meios de comunicação de massa são relativas: o fato de a Rede Globo ter se posicionado contrária a paralisação dos caminhoneiros não fez com que, automaticamente, a maioria da população também adotasse a mesma posição.

Pelo contrário, neste caso, gerou uma grande ojeriza em relação à emissora, mesmo de seus habituais “apoiadores”.

As relações entre mídia e público vão muito além de uma simples análise behaviorista de estímulo/resposta.

Logo, as hipóteses que partem da premissa de que há, por um lado, meios de comunicação manipuladores, com interesses claros em controlar aspectos emocionais e cognitivos da audiência e, de outro lado, receptores automaticamente manipulados, desprovidos de qualquer tipo de criticidade, são insuficientes para compreender o complexo processo de comunicação.


Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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