Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

O Rock errou: o triste fim da Geração 80

Nem todos os roqueiros da década de 1980 aderiram ao conservadorismo. Nomes como Arnaldo Antunes, Paulo Miklos e Leoni ainda mantém posicionamentos democráticos. No entanto, as exceções não são suficientes para refutar a tese de que o rock nacional dos anos 80, de forma geral, encaretou.


roger bolsoaro.jpg

Em 1986, Lobão lançava o disco “O Rock Errou” e, mal sabia o músico carioca, que o título de seu segundo álbum solo descreveria perfeitamente o que foi a sua geração (ou pelo menos grande parte dela). “Aqueles garotos que queriam mudar o mundo nos anos 80”, como dizia Cazuza, se transformaram, três décadas depois, em senhores extremamente conservadores e decadentes, ou, como apontava o mesmo Cazuza, “gente careta e covarde”, que “celebra a estupidez humana”, conforme já denunciado pela Legião Urbana.

Como explicar o fato de jovens que iniciaram suas carreiras musicais ainda durante a Ditadura, que condenavam a repressão em suas canções e, assim como a letra do Ira!, “queriam lutar, mas não com essa farda”, terem se transformado em cinquentões e sessentões que apoiam magistrados tendenciosos e políticos com posicionamentos abertamente fascistas, favoráveis a volta do regime militar?

Os Engenheiros do Havaí já deram o prognóstico, “o fascismo é fascinante deixa a gente ignorante e fascinada”. Talvez os músicos da chamada Geração 80 fossem apenas “rebeldes sem causa”, lembrando uma letra do Ultraje a Rigor.

Falando em Ultraje, ver o seu vocalista Roger Moreira compartilhando uma foto com Jair Bolsonaro nas redes sociais nos leva a constatar que realmente ele é o que cantava nos anos 80: “inútil” e "não sabe escolher o presidente”.

Nessa mesma linha, Lobão também declarou seu apoio ao “mito” que, remetendo à música do “Uns e Outros”, “prolifera ódio, destruição, a morte, a discórdia, a ganância e a guerra”.

Aliás, o ex-baterista da Blitz, citado no início desse texto, talvez tenha a trajetória mais contraditória entre os músicos da Geração 80.

Se, na eleição presidencial de 1989, Lobão desafiava a poderosa Rede Globo, fazendo campanha para a candidatura Lula contra Fernando Collor em pleno “Domingão do Faustão” e, nos anos 1990 e 2000, ele batia de frente com a indústria fonográfica; hoje, o “Velho Lobo” nada mais é do que uma figura caricata, que fica despejando ódio ao lado de outras personalidades também caricatas como Olavo de Carvalho, Luiz Felipe Pondé, Alexandre Frota e Danilo Gentili, representantes máximos da “babaquice, tolice e caretice”, que o mesmo Lobão dizia estar cansado na letra de “Vida Louca Vida”.

“Decadence” e sem “elegance”.

capitalismo-inicial_dinho-familia-moro_rock-de-direita_ganancia.jpg

Nos anos 80, os Titãs protestavam contra o “Estado Violência”, que não nos deixava “pensar”, “sentir” e “querer”.

Hoje, paradoxalmente, seus colegas de geração Evandro Mesquita, João Barone e Dinho Ouro Preto tecem vários elogios ao autoritário juiz Sérgio Moro (aquele que “não respeita a Constituição, mas acredita no futuro da nação”, versos exaustivamente cantados pelo próprio vocalista do Capital Inicial).

Muitos analistas relacionam o conservadorismo da Geração 80 à origem social de seus membros.

Como bons indivíduos da classe média alta, enquanto jovens, eles se rebelaram contra a sua classe, se posicionando a favor da “plebe rude”; e, depois de velhos, como bons “filhos ingratos arrependidos”, retornaram aos interesses de seus iguais.

Parafraseando o supracitado Cazuza, “a pequena burguesia fede”.

danilo-gentili-recebe-lobao-no-the-noite-1_300240_36.jpg

Evidentemente, nem todos os roqueiros da década de 1980 aderiram ao conservadorismo. Nomes como Arnaldo Antunes, Paulo Miklos e Leoni ainda mantém posicionamentos democráticos (estaria este último fazendo jus ao nome de sua ex-banda, “Heróis da Resistência”?).

No entanto, as exceções não são suficientes para refutar a tese de que o rock nacional dos anos 80, de forma geral, encaretou. Aqueles garotos que queriam mudar o mundo agora compactuam com o que há de mais retrógrado no país, ou, no máximo, “agora assistem a tudo em cima do muro”, como tem feito Paulo Ricardo. O Camisa de Vênus já havia cantada a pedra: “isso é só o fim, mas isso é só o fim”.


Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Francisco Ladeira