Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Plantaram Aécio e estão colhendo Bolsonaro

Mesmo que Bolsonaro não seja presidente, o estrago já foi feito e o fascismo está bastante presente entre nós, se manifestando através das agressões a travestias, nas ondas de linchamentos, nas tentativas de calar os professores em sala de aula e na perseguição a uma professora universitária que defende a descriminalização do aborto.


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“Plantaram Aécio e estão colhendo o Bolsonaro, o subproduto do ódio contra o PT”. Com esta frase, o ex-presidente Lula sintetizou claramente o que significa a figura política de Jair Messias Bolsonaro, o principal nome da extrema-direita brasileira nos últimos anos.

Como se sabe, os donos do golpe de 2016 precisavam dar um “ar popular” ao processo político que culminou na deposição da presidenta democraticamente eleita Dilma Rousseff. Para tanto, através da moralista e seletiva campanha jurídico/midiática “anticorrupção”, foi recrutada a classe média coxinha (audiência cativa do Jornal Nacional), que pôde, enfim, substituir o seu “ódio ao PT por causa das políticas sociais”, pelo “ódio ao PT por causa da corrupção”.

No entanto, a classe média coxinha não foi suficiente para “lotar” as manifestações golpistas Brasil afora. Os donos do golpe precisavam de mais pessoas. Foi então que recorreram aos estratos fascistas da população, que, desde o final do Regime Militar, se mantinham relativamente distante dos principais acontecimentos políticos.

Porém, lembrando uma clássica frase de Bertolt Brecht, “A cadela do fascismo está sempre no cio”. Enganou-se redondamente quem pensou que os golpistas poderiam usar os fascistas como tropa de choque para as manifestações de rua e depois, concretizado o golpe, jogariam a extrema-direita novamente para os porões da história (de onde, aliás, nunca deveriam ter saído).

Aconteceu justamente o contrário: a extrema-direita está mais forte do que nunca, vide a própria popularidade de Bolsonaro, apontado como primeiro lugar das intenções de voto nas eleições para Presidência da República nos cenários sem o ex-presidente Lula. Soltaram o cão raivoso do fascismo, e agora está difícil contratá-lo.

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A atual ascensão fascista no Brasil também é um efeito colateral do advento da Internet. É fato que o espaço virtual democratizou o acesso a informação e proporcionou, pela primeira vez na história, a possibilidade para que moradores de qualquer região do planeta, desde que conectados à rede mundial de computadores, pudessem divulgar as suas ideias em escala global, sem a necessidade de recorrer aos tradicionais veículos de comunicação de massa.

Sendo assim, grupos sociais historicamente excluídos – como homossexuais, negros e mulheres –, puderam fomentar laços de solidariedade, independentemente de entraves geográficos.

Em contrapartida, a Internet também é refúgio de discursos intolerantes e preconceituosos. Isoladamente, seja por receio de repúdio social ou autocensura, um indivíduo não expõe determinadas ideias preconceituosas, guardando-as para si mesmo.

Todavia, a partir do momento em que acessa a rede mundial de computadores e entra em contato com outras pessoas que assumem posições tão equivocadas quanto as suas, ele se fortalece e passa a não mais temer a hipótese de revelar aspectos obscuros de sua personalidade. Consequentemente, as redes sociais estão infestadas de manifestações racistas, xenófobas, homofóbicas, sexistas e classicistas.

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Como outrora afirmou o escritor e filólogo italiano Umberto Eco, as redes sociais concederam o direito à palavra a uma “legião de imbecis” que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”. Normalmente, os imbecis eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel. Desse modo, o grande drama da Internet é que ela promoveu o “idiota da aldeia” a portador da verdade.

Nesse sentido, as redes sociais estão infestadas de haters, de ideias descabidas como a associação entre nazismo e esquerda, figuras controversas como Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino e Kim Kataguiri foram alçadas ao status de “grandes pensadores contemporâneos” e, não por acaso, Jair Bolsonaro possui milhões de seguidores virtuais.

Aliás, nos discursos do “mito” estão presentes vários posicionamentos fascistoides, como o “culto da tradição” (através de uma suposta defesa da tradicional família brasileira), “negação da história” (não houve golpe em 1964, os governos militares não torturaram, os portugueses nunca pisaram na África para escravizar os negros), “criação de bodes expiatórios” (os membros do MST são todos bandidos, todos os problemas brasileiros foram causados pela esquerda), “complexo de perseguição” (toda a mídia brasileira é comunista, propagadora de fake news), “patologização do diferente” (ataques a negros, mulheres, refugiados, homossexuais e moradores de comunidades carentes), “negação da realidade” (valorização da “autoverdade”, isto é, uma verdade pessoal e autoproclamada), “rechaço ao pensamento crítico” e “apelo às classes médias frustradas” (como as propostas de soluções simples para problemas complexos relacionados à segurança pública: “bandido bom é bandido morto”).

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Mesmo que Bolsonaro não seja presidente, o estrago já foi feito e o fascismo está bastante presente entre nós, se manifestando através das agressões a travestis, nas ondas de linchamentos, nas tentativas de calar os professores em sala de aula e na perseguição a uma professora universitária que defende a descriminalização do aborto.

Homofóbicos, misóginos, xenófobos, entre outros preconceituosos, agora podem “sair do armário”; e, o que é melhor (para eles) é poder disseminar as suas aversões sem as mencionar diretamente, basta dizer “Bolsomito” e tudo se resolve.


Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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