Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Privacidade em tempos virtuais

As modernas tecnologias trouxeram novas possibilidades de voyeurismo e de invasão de privacidade que fazem com que o mundo todo tenda a se transformar em um grande e único Big Brother


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O homem é um ser inerentemente gregário. Isso significa que, ao contrário da maioria das espécies que habitam o planeta, nós não conseguimos sobreviver sem o auxílio direto de outras pessoas.

Por questões adaptativas, que envolvem a relação entre o canal de parto e o tamanho da cabeça humana, nascemos prematuros, aos noves meses. Completamente desamparados, em nossos primeiros anos, ficamos totalmente atrelados a um cuidador (mãe, pai ou outro responsável).

A grande dependência do ser humano em relação à comunidade fez com que ideias como intimidade, privacidade e individualidade fossem praticamente inexistentes em organizações sociais antigas.

Em algumas sociedades, era extremamente comum filhos, pais e avós ocuparem o mesmo quarto e, em outras, mesmo os acontecimentos mais íntimos da vida de uma pessoa eram de domínio público, como nos casos dos rituais de iniciação tribais.

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Somente com o advento das chamadas sociedades burguesas, no século 19, surge, de fato, a moderna noção de privacidade.

Esta mudança trouxe alterações na disposição dos cômodos das casas, com a consolidação dos aposentos individuais, e chegou até a esfera jurídica, com a criação de uma série de leis que visavam inibir possíveis ações arbitrárias do Estado sobre os seus cidadãos.

Parecia que, enfim, o indivíduo se livraria dos grilhões secularmente impostos pela sociedade e poderia se desenvolver plenamente sem os constantes olhares alheios.

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No entanto, o surgimento das redes sociais, no limiar do século 21, trouxe uma considerável mudança na concepção de privacidade.

Ao contrário de outras épocas, atualmente não são apenas os membros de uma aldeia que podem conhecer e/ou controlar todos os passos de uma pessoa, mas potencialmente todo o planeta, através do espaço virtual.

As recordações familiares, antes restritas aos álbuns de fotografias acessíveis somente a parentes e amigos mais próximos, migraram para a timeline do Facebook, passando então a ser de domínio público.

Mesmo quem não possui um perfil virtual, como a avó que faz as rabanadas natalinas ou o tio que faz piada sobre pavê, não está imune à esta invasão de privacidade contemporânea, pois corre o risco de aparecer (esteja consciente disso ou não) em fotos tiradas por parentes ou amigos que são imediatamente postadas nas redes sociais.

Consequentemente, ficamos sabendo (mesmo sem querer) o que as pessoas vestiram no réveillon, o que comeram no natal ou o que beberam na festa de final de ano da empresa.

As imagens presentes nas redes sociais conseguiram atingir um feito que os fofoqueiros de plantão jamais conseguiram: estão presentes nos eventos mais concorridos do high society, nas piscinas das famílias mais abastadas, nos churrascos dos finais de semanas ou até mesmo no ventre materno, pois não é raro aparecer um exame de ultrassonografia na timeline do Facebook (portanto, podemos dizer que também somos “prematuros virtuais”).

Desse modo, criam-se tácitas disputas sobre quem passou a virada do ano mais feliz, quem tem a família mais bonita, quem viajou para o destino mais badalado ou sobre quem malha na melhor academia. “Posto no Facebook, logo existo”, diz o ditado pós-moderno.

Segundo a comunicóloga argentina Paula Sibilia, cada vez mais pessoas, anônimas ou famosas, movidas pela necessidade de obter destaque e reconhecimento, abdicam espontaneamente da sua privacidade, constituindo o fenômeno contemporâneo denominado “a intimidade como espetáculo”.

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Por outro lado, é importante frisar que este texto não possui uma visão tecnofóbica, isto é, de completa aversão à tecnologia, ou tampouco procura ser uma espécie de manifesto contra as redes sociais.

Lembrando as palavras de Noam Chomsky, a tecnologia, em si, é neutra. Ela não liga se for usada para controlar ou para libertar as pessoas. Ela se torna o que as pessoas dela fazem, para o “bem” ou para o “mal”.

Nosso objetivo aqui é apenas destacar como as modernas tecnologias trouxeram novas possibilidades de voyeurismo e de invasão de privacidade que provavelmente deixariam admirado George Orwell, autor do clássico livro 1984.

Em suma, o mundo todo tende a se transformar em um grande e único Big Brother.


Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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