Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Quando o "vice" é mais lembrado do que o "campeão"

Com todo respeito a Beija-flor, quando alguém falar sobre o desfile do carnaval carioca de 2018 daqui a cinquenta, cem ou duzentos anos, provavelmente, o primeiro nome a ser lembrado não será o da agremiação de Nilópolis, mas o da vice-campeã, Paraíso do Tuiuti


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Em concursos carnavalescos, em competições esportivas e na vida de maneira geral nem sempre os melhores “vencem” ou passam para a posteridade.

Quando se fala sobre a Copa do Mundo de 1954, a maior lembrança das pessoas que viveram aquela época é a grande seleção húngara comandada por Puskás, vice-campeã daquele torneio. A seleção alemã, campeã, caiu no esquecimento.

Na competição de Salto Triplo na Olimpíada de Moscou, o maior destaque foi o brasileiro João Carlos de Oliveira, mais conhecido como “João do Pulo”, terceiro colocado, e não Jaak Uudmae, atleta da casa, medalha de ouro, mas nitidamente beneficiados pelos juízes.

Nos concursos carnavalescos, em que poucos décimos podem definir campeões, a linha tênue entre “vencedores” e “perdedores” torna a questão ainda mais complexa. No desfile das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro realizado em 1989, a performance da vice-campeã Beija-Flor de Nilópolis, com o enredo “Ratos e urubus, larguem a minha fantasia”, idealizado por Joãozinho Trinta, foi mais festejada do que a da própria campeão, Imperatriz Leopoldinense.

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Quase três décadas depois, no carnaval mais politizado dos últimos anos, a escola de samba Paraíso do Tuiuti, vice-campeã, entrou para a história pelo seu excelente enredo.

É fato que agremiações como Mangueira, Salgueiro e a própria Beija-Flor tocaram em temáticas importantes como feminismo, direitos da comunidade LGBT e a influência da religião em assuntos públicos.

Mas a Tuiuti abordou a questão que, conforme aponta o sociólogo Jessé Souza, representa a herança mais maldita que existe em nossa sociedade: a escravidão.

Não se trata da escravidão que começou em meados da década de 1530, com o tráfico negreiro, e “terminou” em 13 de maio de 1888, com a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel.

Mas a escravidão que está entre nós, cotidiana, representada pelo quartinho de empregada, pelo elevador de serviço, pela precarização do trabalho e pelos indivíduos que bateram panela pela deposição de um governo federal, não por seus equívocos políticos, mas por causa da implantação de medidas que buscaram amenizar um pouco o sofrimento dos setores mais pobres da população.

Alas como “manifestoches” ou o personagem “vampiro neoliberalista” comprovaram que o carnaval não é um poderoso mecanismo de alienação das massas como pensam as mentes mais conservadoras de nossa sociedade.

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Como diria Nelson Rodrigues, “azar dos fatos”. Com todo respeito a Beija-flor, quando alguém falar sobre o desfile do carnaval carioca de 2018 daqui a cinquenta, cem ou duzentos anos, provavelmente, o primeiro nome a ser lembrado não será o da agremiação de Nilópolis, mas o da vice-campeã, Paraíso do Tuiuti.

A escola de São Cristóvão mostrou para o mundo o processo de ruptura democrática em curso no Brasil, responsável pelo desmonte do Estado e pela perda de diretos básicos da população.

Assim como o grande Darcy Ribeiro, a Tuiuti também pode se orgulhar de sua “derrota”. Um “segundo lugar” que foi “primeiro” para a consciência do povo brasileiro.


Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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