Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Redes sociais e autoimagem

Uma análise mais apurada sobre o homem enquanto ser social apontará que a grande dependência em relação ao olhar do outro, a busca por aprovação alheia e a necessidade de transmitirmos uma imagem sobre nós mesmos são questões que estão presentes em nossas personalidades desde o surgimento das primeiras organizações humanas


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Atualmente, muito se tem falado que o advento das redes sociais fez com que as pessoas passassem a construir “personagens de si mesmas”; ou seja, cada vez mais tentamos aparentar algo que realmente não somos (ou pelo menos que pensamos que somos), através de postagens no Facebook e no Instagram que enfatizam sucessos profissionais, aquisições de bens materiais, presenças nas baladas mais concorridas, premiações, viagens a lugares paradisíacos e relacionamentos amorosos perfeitos.

No entanto, uma análise mais apurada sobre o homem enquanto ser social apontará que essa grande dependência em relação ao olhar do outro, a busca por aprovação alheia e a necessidade de transmitirmos uma imagem sobre nós mesmos são questões que estão presentes em nossas personalidades desde o surgimento das primeiras organizações humanas, portanto muito antes da ascensão do espaço virtual.

Segundo Jung, nossa “individuação”, isto é, o processo pelo qual “nos tornamos nós mesmos”, como seres singulares, está intrinsecamente ligada à relação entre indivíduo e coletividade.

Em outras palavras, o constante contato com o outro me dirá quem sou.

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No livro A Representação do Eu na vida cotidiana, Erving Goffman compara a vida social a um palco de teatro em que diversos papéis sociais são encenados, de modo que o indivíduo não é o mesmo em todas as circunstâncias: se ele for um professor e estiver em seu local de trabalho, utilizará um vocabulário próprio, diferente daquele empregado quando está em sua casa e cumpre as funções de pai e marido, ou quando encontra com amigos em um bar.

Se frequento a high society, devo cultivar certos hábitos, etiquetas e gostos como apreciar determinados vinhos, saber se portar à mesa, ouvir música clássica e admirar obras de arte mesmo que, internamente, eu odeie tudo isso.

No entanto, nem sempre somos bem-sucedidos na execução do personagem que criamos sobre nós mesmos, pois muitas vezes as pessoas têm impressões sobre nós que são totalmente diferentes daquelas que imaginávamos que elas teriam.

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Por outro lado, em ocasiões específicas, o papel social é tão forte que um indivíduo só consegue reconhecer a si mesmo quando desempenha suas funções perante a sociedade.

Este é o caso do militar Jacobina, personagem de um conto de Machado de Assis, que só conseguia ver a sua imagem refletida nitidamente no espelho enquanto vestia a sua farda.

Se até o átomo muda de comportamento quando observado, por que essa máxima seria diferente conosco, seres gregários?

Não por acaso, uma letra da banda Capital Inicial traz um intrigante questionamento: "o que você queria fazer se ninguém pudesse te ver?".

Provavelmente, algo bem diferente do que você faz quando todos estão te observando.

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Portando, as redes sociais não criaram a necessidade do ser humano em “aparecer” para o outro.

Conforme pôde ser constatado neste pequeno artigo, isso faz parte de nós.

O que plataformas como Facebook e Instagram fizeram foi elevar a possibilidade de construirmos um personagem de nós mesmos a patamares jamais imagináveis por Jung, Goffman, Machado de Assis, ou qualquer outro pensador.


Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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