Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Reflexões sobre a abolição

A verdadeira libertação do negro (e da sociedade brasileira como um todo) ainda é um processo longo e inacabado


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Os 130 anos da Lei Áurea, que determinou a abolição oficial da escravatura no Brasil, trazem uma excelente oportunidade para refletirmos sobre a situação do negro em nosso país.

Conforme apontam importantes estudos sociólogos, e, recentemente, foi demonstrado de maneira brilhante no desfile da Escola de Samba Paraíso do Tuiuti, a escravidão é o principal fator que moldou a sociedade brasileira e, infelizmente, ainda se faz bastante presente em nosso cotidiano.

Enquanto o Estado Alemão já promoveu uma espécie de autocrítica pelo nazismo e na Índia há várias políticas que buscam minimizar os efeitos milenares do sistema de castas; no Brasil, os três séculos de escravidão ainda representam uma questão controversa.

Qualquer tipo de reparação histórica à população negra, como as cotas raciais em universidades e concursos públicos, ainda sofre bastante resistência de parcela considerável da população.

De acordo com o sociólogo Jessé Souza, a origem do Brasil não está em uma suposta herança portuguesa, mas no sistema escravocrata, baseado na dicotomia senhor versus escravo.

Após a abolição da escravatura, os ex-cativos foram jogados nas ruas à própria sorte.

Consequentemente, as favelas se constituíram em novas senzalas.

O antigo “ódio ao escravo” se transformou automaticamente em “ódio ao pobre”.

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Dados estatísticos e constatações empíricas confirmam a tese de que, na prática, a escravidão ainda não acabou no Brasil.

Ela está entre nós, no quartinho de empregada, no elevador de serviço, na precarização do trabalho e nos indivíduos que bateram panela pela deposição de um governo, não por seus equívocos políticos, mas por causa da implantação de medidas que buscaram amenizar o sofrimento dos setores mais pobres da população.

Se o coxinha de hoje tivesse vivido no século 19, ia dizer que o discurso favorável a Abolição é "mimimi" de "esquerdopata".

Mesmo não legitimado juridicamente, como nas leis Jim Crow e no Apartheid, que vigoraram nos Estados Unidos e na África da Sul, respectivamente, no Brasil se desenvolveu uma forma velada de preconceito racial.

Por meio de supostos eufemismos como “moreninho”, “jambo” e "mulato", a origem étnica de um indivíduo é escamoteada, como se fosse desonroso ser qualificado como negro.

Em nosso dia-a-dia, é comum ouvirmos expressões como “o negro, quando não suja na entrada, suja na saída”, “serviço de preto” ou “fulano é um negro de alma branca”.

Na escola básica frequentemente estudantes negros vivem situações constrangedoras e são tratados com indiferença por colegas e professores.

Já no ensino superior, apresar de representarem metade de população brasileira, os negros são menos de 5% do corpo discente.

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Nos meios de comunicação de massa, os negros geralmente estão associados a estereótipos como a “mulata sensual” ou o “negro malandro”; e a profissões consideradas socialmente inferiores, como empregadas domésticas e jardineiros.

Não obstante, os negros (principalmente os moradores de comunidades carentes), são as maiores vítimas de violência policial (“todo camburão tem um pouco de navio negreiro”, diz uma música da banda O Rappa).

Portanto, é possível concluir que a verdadeira libertação do negro (e da sociedade brasileira como um todo) ainda é um processo longo e inacabado.


Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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