Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Reflexões sobre o Dia do Orgulho Ateu

Assim como não é preciso ser mulher para apoiar o feminismo, ser negro para combater o racismo, ou ser homossexual para ser favorável às causas de gays e lésbicas, religiosos também podem defender o direito de ateus e agnósticos de se manifestar em público sem correr o risco de sofrer preconceito


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Em 12 de fevereiro é comemorado o Dia do Orgulho Ateu. A data em questão, uma referência ao nascimento de Charles Darwin, não foi criada para “converter” pessoas ao pensamento cético ou tampouco representa uma afronta às religiões.

Pelo contrário, trata-se de uma grande oportunidade para refletirmos a respeito dos preconceitos vivenciados por ateus e agnósticos em nossa sociedade e também pensarmos sobre a necessidade de se consolidar um Estado brasileiro que seja realmente laico, isto é, que garanta a liberdade de culto, o direito à não-crença e, sobretudo, que possa assegurar que convicções religiosas sejam restritas ao âmbito privado e não interfiram nas políticas públicas.

Quando se fala em preconceito, as imagens de pobres, negros, mulheres e homossexuais vêm logo à nossa mente. Certamente, são as discriminações mais visíveis.

Por outro lado, a ateofobia (discriminação contra ateus) é uma questão ainda pouco debatida. Em outros termos, isso significa que os constrangimentos passados por ateus e agnósticos em seus cotidianos passam desapercebidos pela maioria de nós.

Não é raro uma pessoa ser segregada nos ambientes familiar, de estudo ou trabalho pelo simples fato de não possuir uma crença religiosa. Hostilizar ateus e agnósticos por causa de suas concepções existenciais ainda é uma prática bastante tolerada.

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Não obstante, o que torna essa questão ainda mais controversa é o fato de muitos religiosos acreditarem que, ao se voltarem contra ateus e agnósticos, estariam supostamente agindo de acordo com os preceitos de sua crença.

Evidentemente, religião não define a conduta de um indivíduo. Ateus como Saramago, Marx, Nietzsche, Chaplin, Carl Sagan, Sartre, Oscar Niemeyer e Herbert de Souza foram excelentes profissionais em suas respectivas áreas.

Em contrapartida, Hitler, Mussolini e Jim Jones, cristãos fervorosos, foram responsáveis pelas mortes de milhões de seres humanos. Ao contrário do propagado pelo senso comum, nem ateus são inerentemente “maus”, nem religiosos são automaticamente “bons”.

Já a reinvindicação de um Estado verdadeiramente laico é uma causa que extrapola os limites dos debates entre crentes e ateus, pois representa uma questão que atinge praticamente todos os âmbitos da sociedade.

Em um país como o Brasil, marcado por inúmeros retrocessos nos anos últimos, a mistura entre assuntos religiosos e políticos têm sido responsável por impedir debates sérios sobre questões de extrema importância como aborto, direitos da comunidade LGBT e a necessidade de trabalhar temáticas como “identidade de gênero” e “orientação sexual” nos currículos escolares.

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Exercitar a alteridade, ou seja, saber se colocar no lugar do outro, é uma prática fundamental para lidar com a grande diversidade presente em nossa sociedade. Assim como não é preciso ser mulher para apoiar o feminismo, ser negro para combater o racismo, ou ser homossexual para ser favorável às causas de gays e lésbicas, religiosos também podem defender o direito de ateus e agnósticos de se manifestar em público sem correr o risco de sofrer preconceito, assegurando assim que a opção de ter ou não uma crença religiosa seja devidamente respeitada.

Enfim, com todo o risco de cometer um truísmo, sempre é bom recorrer à famosa citação (erroneamente atribuída a Voltaire): “Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até o último instante seu direito de dizê-la”.


Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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