Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Sobre a provável política externa de Bolsonaro

Com Bolsonaro à frente do Planalto, é melhor já ir se acostumando com a ideia de que o Brasil será um anão geopolítico


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Oficialmente, o governo Bolsonaro começará somente no dia 1º de janeiro de 2019, mas tudo indica que a sua política externa será marcada por uma total subserviência aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos.

Algo jamais visto em nossa secular história. Sob o aspecto simbólico, só o fato de Bolsonaro bater continência à bandeira estadunidense já nos demonstra o grau de viralatismo diplomático que marcará a próxima gestão do Palácio do Planalto.

No entanto, essa questão é muito mais complexa do que uma mera continência. Os equívocos diplomáticos de Bolsonaro estão além do campo simbólico e já começam a produzir efeitos práticos, como a saída dos médicos cubanos que atuavam nos rincões do país e nas periferias das grandes cidades e a ameaça de enfraquecimento das relações econômicas entre o Brasil e os países árabes, caso realmente o governo Bolsonaro transfira a embaixada brasileira em Israel de Telavive para Jerusalém, em alinhamento com a posição do presidente estadunidense, Donald Trump.

Em outros termos, o Brasil de Bolsonaro estará inserido na equivocada diplomacia já denunciada por Chico Buarque de “falar grosso com países pobres e falar fino com as nações desenvolvidas, sobretudo, os Estados Unidos”. Seguindo a política externa de Washington, Bolsonaro também já demonstrou a intenção de retirar o Brasil de tratados globais relacionados às questões climáticas e migratórias.

Pensando de maneira pragmática, isso significa um potencial risco às relações comerciais do Brasil, pois muitas nações europeias condicionam a compra de produtos brasileiros à participação de nosso país em acordos internacionais. Se, durante o governo Lula, o Brasil atingiu um certo protagonismo internacional, sendo um dos destaques dos chamados BRICS; com o Bolsonaro seremos apenas uma espécie de pináculo dos Estados Unidos, no melhor estilo “República das Bananas” (ou, conforme demonstram os últimos acontecimentos, uma “República dos Laranjas”?).

Ironicamente, o próprio Bolsonaro, autointitulado como patriota, afirmava que a sua política externa não seria “ideologizada”. Nem uma coisa, nem outra.

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Bolsonaro é um dos únicos exemplos históricos de um fascista que não é patriota, pois defende uma política econômica de total entrega das riquezas nacionais aos capitalistas estrangeiros (aliás, diga-se de passagem, o golpe de 2016, ao qual o governo bolsonarista será uma continuação, teve exatamente o intuito de favorecer o imperialismo internacional, em crise desde o final da década passada).

Já a política externa bolsonarista não será apenas ideologizada à direita.

Pior do que isso, ela será de completa submissão aos Estados Unidos, conforme o frisado anteriormente; e, por outro, poderá levar a um certo isolamento em relação ao restante do planeta.

Para uma grande potência mundial como os Estados Unidos, rejeitar acordos internacionais ou cortar relações comerciais com determinadas nações são tarefas relativamente simples. Eles têm poder diplomático para isso.

Em contrapartida, para uma nação subdesenvolvida como o Brasil, querer se isolar de boa parte do planeta, se constituindo em mero apêndice de Washington é uma questão muito mais complexa e perigosa.

Já se foram os médicos cubanos e, em breve, acordos comerciais com países árabes e europeus poderão ser desfeitos. E os Estados Unidos não vão sanar os nossos prejuízos.

Em suma, com Bolsonaro à frente do Planalto, é melhor já ir se acostumando com a ideia de que o Brasil será um anão geopolítico. Os coxinhas adoram afirmar que a nossa bandeira jamais será vermelha. Pois bem, ela será vermelha, azul e branca. E ainda dizem que temos que torcer para tudo isso dar certo.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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