Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

A esquerda que fica a reboque da direita

Com a estratégia de atuação da esquerda brasileira nem precisaríamos de direita


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Ao analisarmos o atual cenário político brasileiro, infelizmente, temos que admitir que, sob o aspecto estratégico, a direita tem sido muito mais bem-sucedida do que a esquerda.

Utilizando uma metáfora, pode-se dizer que a direita joga a isca, e a esquerda, de maneira ingênua, morde facilmente.

Para início de conversa, basta citar o golpe de 2016, quando os direitistas, após quatro derrotas consecutivas nas eleições presidenciais, conseguiram chegar ao cargo máximo da nação pela via do “tapetão”.

Aliás, no período que antecedeu ao golpe, boa parte da esquerda apoiou os direitistas em suas críticas à presidenta Dilma Rousseff, chegando inclusive a participar dos chamados “coxinhatos”.

Fato emblemático dessa “esquerda a reboque da direita” foi a presença de um cartaz do PSTU (com a esquizofrênica palavra de ordem “Fora Todos!”) na FIESP (a Meca do Pato Amarelo).

Nessa mesma época, muitos movimentos de esquerda consideravam que era melhor lutar contra o ajuste fiscal proposto por Dilma Rousseff do que defender o governo do PT do ímpeto golpista.

O resultado dessa tática desastrosa: Temer, o “Vampirão”, e agora Bolsonaro, o “Fascista”, com suas políticas muito mais duras para a classe trabalhadora.

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Não obstante, concretizado o golpe, a esquerda continuou a cair na conversa fiada da direita, apoiando a pseudo-moralista e seletiva campanha anticorrupção e a judicialização da política.

Boa parte da esquerda vibrou com a prisão de Eduardo Cunha, com a aplicação da Lei da Ficha Limpa e com a golpista Operação Lava-jato; mas se esqueceu que, quanto mais poderes os juízes tiverem para intervir no campo político, mais vão perseguir justamente quem? A esquerda, é claro.

A prisão política de Lula, para que ele não pudesse se candidatar na última eleição presidencial, é o caso mais emblemático dessa realidade.

E por falar no pleito passado, não por acaso, a direita obteve todas as vitórias possíveis sobre a esquerda, tanto no campo simbólico, quanto na esfera eleitoral propriamente dita.

O fato de o PT ter abdicado à candidatura Lula (o presidenciável preferido dos brasileiros) já demonstrou uma enorme capitulação à direita.

Além do mais, a simples presença do ex-presidente nas eleições já causaria um imenso mal-estar entre os golpistas.

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Por outro lado, a própria chapa Fernando Haddad/Manuela d'Ávila andou o tempo a reboque da direita.

Não faltaram elogios à Lava-jato e ao carrasco Sérgio Moro (no melhor estilo “Síndrome de Estocolmo”), menções à necessidade de o PT fazer uma autocrítica (como querem os direitistas) e a troca do tradicional vermelho pelo (coxinha) verde e amarelo (o que inclusive foi alvo de chacotas dos fascistas eleitores de Bolsonaro).

Falando em “mito”, após a facada (suposta?) no então candidato pelo PSL, grande parte da esquerda entrou no clima de comoção nacional artificialmente estimulado pela direita e pela mídia, e só faltou pedir pela canonização de Bolsonaro.

Ora, não há como se solidarizar com fascistas, pois eles não entendem outra “linguagem” a não ser a violência.

Já em assuntos geopolíticos, a esquerda brasileira, de maneira geral, sempre cai no conto da direita e formula os seus posicionamentos a partir das narrativas da grande imprensa.

Sendo assim, Maduro, Ortega e Assad são sanguinários ditadores que devem ser retirados do poder pelos “democratas” estadunidenses; a causa do terrorismo islâmico é o fanatismo religioso e não a presença imperialista no mundo islâmico, Israel é a única democracia do Oriente Médio (com direito a visita de Jean Wyllys) e a Coreia do Norte representa uma ameaça para a paz mundial.

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Se a esquerda ficou a reboque da direita durante o processo eleitoral, nos primeiros dias do governo Bolsonaro não tem sido diferente.

A atual gestão do Planalto tem por objetivo colocar em prática uma política neoliberal extrema, o que significa, recorrendo a mais uma metáfora, "arrancar o couro do trabalhador brasileiro" (com o fim de direitos básicos) e sucatear o Estado brasileiro, por meio de privatizações e corte de investimentos sociais.

No entanto, para não escancarar essa política de terra arrasada, o regime bolsonarista utiliza certas cortinas de fumaça, como as declarações delirantes da ministra Damares Alves.

Em outros termos, enquanto Paulo Guedes e companhia preparam todo tipo de maldade, a população se "distrai" com as discussões secundárias, como sobre qual a cor que menina deve vestir e se as feministas são bonitas ou não.

Diante dessa realidade, boa parte da esquerda, em vez de denunciar essa política econômica nefasta, convoca manifestações contra Damares.

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Conforme bem alertou o presidente do PCO, Rui Costa Pimenta, está em curso um processo de “direitização” da esquerda brasileira com o objetivo de se adaptar ao regime bolsonarista.

Tudo isso sem falar no fato de a esquerda se concentrar nas chamadas pautas identitárias (gênero, raça, sexualidade, etc.), em vez de focar no que é realmente essencial: a luta de classes (considerada uma temática ultrapassada pela direita e, é claro, consequentemente, também pela esquerda a reboque).

Apelando a mais uma metáfora, no atual contexto, a direita “nada de braçada”.

Aliás, de modo geral, com a estratégia de atuação da esquerda brasileira, nem precisaríamos de direita.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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