Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Celebridades ontem e hoje

Em outras épocas, só havia um caminho possível para ser uma celebridade: aparecer exaustivamente na grande mídia, preferencialmente em programas de televisão com grandes audiências. No entanto, essa realidade mudou com o advento das redes sociais. Basta um perfil no Facebook ou Instagram para que qualquer pessoa possa se sentir uma celebridade.


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No final dos anos 1990 e início dos anos 2000, a mídia deu grande destaque para as chamadas “celebridades”, nomenclatura pela qual é designada uma pessoa considerada “famosa”, isto é, conhecida do grande público, constantemente presente em programas televisivos, em colunas sociais e em capas de revistas especializadas.

Na época, surgiram várias publicações destinados exclusivamente a acompanhar os cotidianos das celebridades como a revista “Caras” (toda celebridade que se prezava deveria passar pelo menos um final de semana na Ilha de Caras). Não por acaso, entre 2003 e 2004, a Rede Globo exibiu uma telenovela intitula justamente como “Celebridade”.

Em décadas passadas, quando os celulares ainda não tiravam fotos e “selfie” era apenas uma palavra nas aulas de inglês, não era fácil se transformar em uma celebridade. Ou o indivíduo possuía algum talento artístico, musical ou esportivo devidamente reconhecido; ou vivia à sombra de alguém: “namorada de fulano”, “filho de cicrano” ou “amigo de beltrano”.

Não obstante, só havia um caminho possível para ser uma celebridade: aparecer exaustivamente na grande mídia, preferencialmente em programas de televisão com grandes audiências.

No entanto, essa realidade mudou com o advento das redes sociais. Basta um perfil no Facebook ou Instagram para que qualquer pessoa possa se sentir uma celebridade, ou seja, ter a sensação de estar sendo observada pelos outros, o seu cotidiano “seguido”, postar o que está comendo, divulgar aonde vai, compartilhar suas opiniões sobre um determinado assunto e, é claro, levantar algumas polêmicas. Anonimato nunca mais!

Se antes, paparazzi perseguiam celebridades em busca dos melhores (e muitas vezes constrangedores) flashes; atualmente, os usuários de redes sociais são seus próprios paparazzi. Desse modo, o espaço virtual se transformou em uma grande competição por “curtidas”.

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Porém, conforme já bem advertiu Kierkegaard, a comparação é a raiz da infelicidade humana. Aquela alegria em compartilhar nas redes sociais determinados acontecimentos considerados importantes logo se transforma em frustração ao perceber que o outro possui um automóvel mais novo, uma casa maior, viajou para a praia mais badalada ou tem um emprego mais valorizado.

Aquela foto postada estrategicamente para tentar provocar ciúmes no ex-namorado logo perde o sentido ao tomar conhecimento de que ele está com uma companheira mais bonita e interessante. São os efeitos colaterais das redes sociais: às vezes tomamos conhecimento de algo que não queríamos (a princípio) saber, mas que acaba nos afetando. “O que o Facebook vê, o coração sente”, diz um clássico ditado popular, adaptado para a contemporaneidade.

Em suma, a “vida real” não é um conto de fadas. Roberto Carlos já dizia: quem espera que a vida seja feita de ilusão pode ficar maluco.

Nossa existência é muito mais complexa e angustiante do que demonstra a felicidade quimérica das celebridades de ontem e de hoje.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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