Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Impopularidade do governo federal e os últimos Bolsominions

De um lado, o autointitulado "cidadão de bem", ou, usando uma linguagem atual o "Bolsominion raiz", sempre pronto para fazer "arminha" com a mão e apoiar o "mito"; e, de outro lado, o "Bolsominion nutella", que já abandonou o barco.


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Conforme apontam os principais institutos de pesquisa do Brasil, o mandato presidencial de Jair Bolsonaro é aprovado por menos da metade da população, o que representa, na prática, o menor índice de satisfação popular entre os últimos governantes.

De fato, não se trata de uma novidade, pois, como já era esperado, o governo tem se mostrado um verdadeiro desastre. Aliás, a situação poderia estar ainda pior, caso Bolsonaro e sua trupe conseguissem colocar em prática os seus projetos maléficos logo nos primeiros meses de governo.

A combinação de neoliberalismo com pitadas de fascismo prometida por Bolsonaro ainda engatinha justamente pelo fato de que o próprio (des)governo tem "batido cabeça" em inúmeros pontos.

Também a impopularidade de Bolsonaro não se trata de algo surpreendente, pelo simples motivo de que ele não é popular. Está certo que o discurso bolsonarista encontra grande apoio nos setores mais aloprados de nossa sociedade, mas este pessoal está bem longe de representar uma parcela significativa da população.

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Por outro lado, alguns podem argumentar que Bolsonaro foi eleito e tudo mais, o que lhe tornaria, automaticamente, popular.

Ledo engano, pois Bolsonaro foi "eleito" em um dos processos eleitorais mais fraudulentos da história republicana (se não for o mais fraudulento).

Primeiro: uso generalizado de notícias falsas para desmoralizar o seu adversário do Segundo Turno.

Segundo (e principal motivo): o candidato preferido da população - Lula - foi impedido de concorrer ao Planalto, em um dos processos mais escandalosamente forjados da política mundial.

Terceiro (para quem gosta de números): no Segundo Turno, os votos brancos, nulos, abstenções e a votação de Haddad, somados, foram superiores aos votos de Bolsonaro. Logo, mais da metade do eleitorado brasileiro não quis ser governado por um fascista.

Além do mais, seguramente, a grande maioria dos eleitores de Bolsonaro não votaram nele por causa do programa de governo, mas simplesmente pelo ódio ao PT, sentimento difundido, principalmente, pelas elites econômicas, pela mídia hegemônica e pela classe média coxinha, que bateu panela, vestiu camisa da CBF e dançou em volta do Pato Amarelo.

Não obstante, o eleitorado bolsonarista abrangeu um público bastante heterogêneo, composto por banqueiros, imprensa, grandes empresários, evangélicos fanáticos, ruralistas, fascistas, classe média coxinha e, como bucha de canhão, o pobre de direita.

Se, como já dizia Marx, "tudo que é sólido se desmancha no ar", o que dizer então da vulnerável base eleitoral bolsonarista, extremamente "líquida", como a pós-modernidade de Zygmunt Bauman? Portanto, era natural que nos primeiros sinais de fracasso do governo Bozo alguns de seus "apoiadores" já deixassem o barco.

Diga-se de passagem, ser "vira-folha" é uma das características clássicas da direita brasileira.

A primeira debandada veio da parcela da classe média que tradicionalmente vota no PSDB; sendo que o próprio Fernando Henrique Cardoso já fez declarações contrárias ao governo Bolsonaro, mas se esqueceu de que o seu partido, "ao plantar Aécio", ajudou diretamente a "colher Bolsonaro".

Esse pessoal, inclusive, já apagou postagens e avatares pró-Bolsonaro em suas redes sociais, no melhor estilo "política de avestruz".

Seguindo esse caminho, os eleitores do Banco Itaú, digo "Partido Novo", que na reta final da eleição de 2018 trocaram João Amoêdo por Bolsonaro (a quem se referiam como "Coiso") também abandonaram o barco. O alibe: "a culpa não é minha, eu votei no Amoêdo" (como se, em matéria de política econômica, não fosse a mesma coisa).

A classe média coxinha, guardiã dos bons costumes e "moralmente superior" às outras classes, ao tomar conhecimento dos podres do clã Bolsonaro, também já debandou. "Não tenho bandido de estimação", é o mantra cínico do coxinha classe média.

Pois bem, agora ele tem o "miliciano de estimação".

Já o pobre de direita, percebendo que os seus (mínimos) direitos estão indo para o ralo, mas Papagaio de Pirata da elite, continua achando que tudo é culpa do PT. É mais confortável do que admitir que foi enganado.

Há também aqueles que estão "em cima do muro", cujo maior exemplo é a Barbie fascistinha. Para ela, o governo está dando errado porque "tem muita gente torcendo contra".

Já a mídia e os grandes capitalistas, astutos como o de costume, preferem esperar pela aplicação do pacote de maldades neoliberais.

Portanto, estão cautelosos, mantendo uma postura ambígua: batem no núcleo aloprado do governo (tipo Damares) e elogiam o núcleo que colocará as maldades em prática (esse sim perigoso), formado por Sérgio Moro - o "Mussolini de Maringá" e Paulo Guedes - aquele que pretende fazer mais mal ao Brasil desde a invasão comandada por Pedro Álvares Cabral.

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Diante dessa lenha, no apoio incondicional ao governo Bolsonaro só sobrou a sua base fiel de apoio, representada pelas pessoas com tendências fascistoides, que se dirigem a Bolsonaro simplesmente como "mito".

Tratam-se do marido que acreditava poder espancar a mulher à vontade durante o governo Bozo, do indivíduo que agride travestis nas ruas, do negro racista, da namorada homofóbica que odeia as amigas lésbicas do namorado, da esposa submissa do militar, do hater das redes sociais que vive comentando postagens alheias sem o mínimo embasamento e do analfabeto geopolítico que está louco de vontade de ver Bolsonaro batendo continência a Trump.

Enfim, tem-se de um lado, o autointitulado "cidadão de bem", ou, usando uma linguagem atual o "Bolsominion raiz", sempre pronto para fazer "arminha" com a mão e apoiar o "mito"; e, de outro lado, o "Bolsominion nutella", que já abandonou o barco.

Se o "Bolsominion nutella" é um caso de analfabetismo político, muitas vezes movido pelo ódio de classes; o "Bolsominion raiz" é mais do que isso, representa também um caso psiquiátrico.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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