Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

O analfabetismo geográfico em questão

Este artigo aborda o chamado "analfabetismo geográfico", isto é, a carência de conhecimentos geográficos presente entre a população.


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Nos anos 70, foi criada nos Estados Unidos a expressão “analfabetismo geográfico” (geographic iliteracy) para designar a carência de conhecimentos geográficos presente entre a população em geral, e em estudantes secundaristas, em particular.

Isso significa que, na época, um percentual considerável dos estadunidenses desconhecia conceitos básicos da Geografia, como a localização geográfica, o idioma ou a capital de outros países importantes do cenário geopolítico global, como, por exemplo, o Brasil.

Nesse sentido, são emblemáticos os casos de pessoas da terra do Tio Sam que acham que Buenos Aires é a capital brasileira ou que nós, brasileiros, falamos espanhol.

Cinco décadas depois, em plena era da comunicação e informação instantâneas, nem mesmo o presidente da maior potência econômica do planeta está imune ao analfabetismo geográfico.

Conforme vemos constantemente nos noticiários internacionais, Donald Trump é um fervoroso crítico do “aquecimento global”, hipótese científica que parte do princípio de que algumas atividades humanas seriam responsáveis por modificar o clima planetário.

Evidentemente, desde que tenha argumentos plausíveis, Trump, como todo cidadão, tem o direito de questionar o conhecimento científico.

No entanto, em uma postagem no Twitter, o presidente estadunidense, ao comentar o frio intenso que fazia no meio-oeste do país durante o inverno, questionou onde estaria o aquecimento global.

Ora, como qualquer aluno de sexto ano sabe, “tempo” – estado momentâneo da atmosfera – e “clima” – sucessão habitual dos tipos de tempo – são conceitos diferentes.

Portanto, não há como utilizar um dia frio (relacionado ao “tempo”) como justificativa para negar mudanças climáticas.

Não por acaso, cientistas de todo o planeta se manifestaram para denunciar o erro crasso do presidente dos Estados Unidos.

Nessa mesma linha de pensamento, não é raro nos depararmos nos principais programas da mídia brasileira com afirmações como “o clima hoje está chuvoso” ou “o clima de São Paulo deve alterar no final de semana”.

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Além de Trump, outro exemplo de analfabetismo geográfico de uma pessoa pública estadunidense foi protagonizado por Joey Ramone, vocalista da banda Ramones.

Em dezembro de 1995, em uma entrevista por telefone para uma revista brasileira, Joey perguntou ao entrevistador se no Rio de Janeiro também estava fazendo frio como em Nova York.

Mais uma vez recorrendo às aulas do sexto ano, sabemos que, devido ao movimento de translação da Terra e à inclinação de nosso planeta em relação ao seu eixo, no último mês do ano, enquanto no Hemisfério Norte (onde fica Nova York) é inverno, no Hemisfério Sul (onde está localizada a capital fluminense) é verão.

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Ao longo dos anos, jogadores de futebol também protagonizaram casos inusitados de analfabetismo geográfico.

Claudiomiro, ex-Internacional de Porto Alegre, ao chegar a Belém do Pará para disputar uma partida contra o Paysandu, pelo Campeonato de Brasileiro de 1972, declarou: “Tenho o maior orgulho de jogar na terra onde Jesus Cristo nasceu”.

Em um programa do SporTv, Denílson, campeão do mundo em 2002 pelo Brasil, contou que, quando jogava no São Paulo, seus colegas de clube sugeriram que nas férias todos viajassem para Cancún, famoso destino turístico do litoral mexicano.

Prontamente, Denílson retrucou seus companheiros: “Pô, fazer o que em Cancún? Eu quero praia”.

Por sua vez, o ex-jogador da seleção brasileira, Amaral, ao ser questionado durante uma aparição ao vivo no Jornal Nacional sobre o problema do Apartheid na África do Sul, respondeu: “se ele [Apartheid] é um jogador perigoso, vou fazer a marcação dele”.

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Jogadores de futebol, em geral, têm origens socialmente humildes, o que justifica de certo modo os seus casos de analfabetismo geográfico.

Porém, o que dizer quando a classe média coxinha, que se orgulha de ter estudado nas melhores escolas e se considera altamente “inteligente”, demonstra desconhecimento sobre questões geográficas?

Aí a situação se apresenta bastante problemática.

Em tempos de polarização ideológica, bolsominions têm compartilhando incessantemente em correntes no WhatsApp uma postagem que aponta que “o maior poço de petróleo da Venezuela, o Santa Elena, fica na fronteira com o Brasil, no Estado de Roraima” e “os governos do PT teriam favorecido a exploração do petróleo brasileiro pelos vizinhos venezuelanos”.

É correto que a Venezuela possui a maior reserva de petróleo do mundo, mas somente na mente aloprada de um bolsominon existe na fronteira daquele país com o Brasil um poço chamado Santa Elena.

Já sobre os recentes incêndios na Amazônia, muitos coxinhas defensores do “mito” ironizaram o fato de a fumaça expelida na Região Norte ter chegado à outras áreas do país, como São Paulo, por exemplo.

Para tanto, compartilharam um mapa em que o estado paulista supostamente estaria localizado como vizinho à Região Norte.

Ora, não precisa ser vizinho do Norte do país para que um estado receba a fumaça vinda da Amazônia, pois, diferentemente do cérebro de um bolsominion, o ar está em constante movimento.

Portanto, um poluente lançado na atmosfera em um determinado local pode tranquilamente chegar a localidades bastante distantes.

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Falando em analfabetismo geográfico, também não poderíamos deixar de mencionar a famosa “Terra Plana”, a “URSAL” e o chamado “globalismo”, entre outros delírios.

No entanto, esses casos estão mais relacionados a questões psiquiátricas do que propriamente à ciência geográfica.

Em suma, os exemplos anteriormente citados demonstram que as aulas de Geografia no ensino básico podem não ser responsáveis por formar geógrafos, ou até mesmo serem consideradas “chatas” por alguns alunos; mas, certamente, são importantes para, no futuro, pelo menos evitar constrangimentos em entrevistas, em rede nacional ou em postagens na internet.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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