Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

O rock errou 2: entre haters e arrependidos

Se outrora o conservadorismo no cenário do rock estava mais relacionado aos músicos ortodoxos que não admitiam a possibilidade de também apreciar outros estilos musicais, atualmente este caráter reacionário tende a se direcionar para posições políticas direitistas.


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Há alguns meses, escrevi um artigo, intitulado “O Rock errou: o triste fim da Geração 80”, em que discorro sobre como alguns dos principais roqueiros “oitentistas” encaretaram nos últimos anos, passando a ter atitudes e posicionamentos altamente incongruentes ao que eles cantavam em outras épocas.

Para tanto, tracei um paralelo entre algumas canções e as atuais posições ideológicas dos músicos da Geração 80, ao melhor estilo “quem te viu, quem te vê” (lembrando um clássico de Chico Buarque).

Falando nisso, o septuagenário cantor e compositor carioca, considerado “esquerda caviar” pelos seus detratores, é um dos principais alvos dos roqueiros neocons.

Aliás, tecer ofensas pessoais ao argumentador, em vez de buscar refutar os seus argumentos, parece ser a tônica dessa contraditória Geração 80 (ou, pelo menos, parte dela).

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Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, um dos “homenageados” de meu texto, fez questão de deixar o seu comentário hostil sobre o que escrevi.

Em suas palavras: “O tempo passou na janela e só Carolina não viu. Você precisa atualizar suas definições de establishment. Eu sempre estive do mesmo lado. O socialismo fede a cadáver. E o idiota é você (e quem está do seu lado)”.

Ironicamente, o vocalista do Ultraje a Rigor se referiu ao trecho de uma canção de seu desafeto Chico Buarque e, no melhor estilo paranoico, citou a palavra “socialismo”, que sequer é mencionada em meu texto.

Como não poderia de ser, o "contra-argumento" de Roger é finalizado com um xingamento gratuito ao autor.

Nesse sentido, não é de se estranhar que ele seja tão próximo a Danilo Gentini, o apresentador e pseudo-humorista que diz abominar Paulo Freire simplesmente por não simpatizar com algumas pessoas que gostam do autor de Pedagogia do Oprimido.

Entre os comentários dos haters sobre o meu texto, não poderia deixar de ter uma menção ao principal bode expiatório da direita brasileira: o PT.

Um desses perfis fakes que assolam a internet, denominado “Homem do Século XX”, teceu a seguinte observação: “Essa geração [80] continua na mesma luta coerentemente, com exceção dos parasitas da Rouanet obviamente. Quem mancha suas carreiras são os repugnantes ‘artistas’ da MPB que defendem e apoiam corruptos, ladrões e todo tipo de político safado como Lula e sua turma de ladrões”.

É difícil imaginar o que se passa na mente delirante de um coxinha aloprado, mas será que esse pessoal realmente pensa que artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso ou Gilberto Gil, entre outros nomes consagrados da música brasileira, somente são reconhecidos pelo grande público e pela crítica especializada por causa da Lei Rouanet?

Seria cômico se não fosse trágico.

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É importante ressaltar que “O Rock errou: o triste fim da Geração 80” foi escrito no calor da campanha eleitoral que conduziria Jair Bolsonaro à presidência da República.

Na época, muitos roqueiros dos anos 80, antes progressistas, aderiram a candidatura ultradireitista de Bolsonaro.

Não obstante, de lá para cá, alguns dos nomes da Geração 80 também continuaram com as suas declarações direitistas.

Embora não seja necessariamente bolsonarista, Marcelo Nova, vocalista do extinto Camisa de Vênus – que outrora batia no peito orgulhosamente para declarar ser membro da única banda genuinamente punk do Brasil – em entrevista recente a um jornal mineiro utilizou o adjetivo “terrorista” para se referir a ex-presidenta Dilma Rousseff (“coincidentemente” a mesma alcunha usada pelos militares durante a Ditadura).

Ora, dá para imaginar um punk recorrendo ao mesmo termo empregado pelos reacionários milicos?

Paradoxos de uma geração que, assim como a economia nacional dos anos 1980, também parece estar “perdida”.

Raul Seixas, um dos principais amigos de Marcelo Nova no meio musical, provavelmente não concordaria com essa declaração (diga-se de passagem, ironicamente, há muitos fãs de Raulzito Brasil afora que são extremamente conservadores).

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Por outro lado, passados apenas cinco meses do (previsivelmente) desastroso governo do “mito”, muitos de seus apoiadores no meio musical já começaram a deixar o barco.

Lobão, um dos que aderiram à candidatura de extrema-direita, recentemente afirmou sobre Bolsonaro: “Não tem capacidade intelectual e emocional para gerir o Brasil. Isso está muito claro para mim e fico muito triste. É óbvio que o governo vai ruir”.

Já Dinho Ouro Preto, que mesmo declarando um constrangido apoio a Haddad, ficou marcado por uma foto com o juiz Sérgio Moro, parece estar desiludido com o atual Ministro da Justiça: “Mas o Moro não deveria ter aceitado o cargo de ministro. Soou como se ele tivesse uma agenda em comum com o Bolsonaro”, avaliou o vocalista da banda Capital Inicial em uma recente entrevista.

Em suma, ao que tudo indica, parece que a opção por adotar o conservadorismo já tem trazido bastante constrangimento aos roqueiros dos anos 1980.

Se outrora o conservadorismo no cenário do rock estava mais relacionado aos músicos ortodoxos que não admitiam a possibilidade de também apreciar outros estilos musicais, atualmente este caráter reacionário tende a se direcionar para posições políticas direitistas.

Lembrando as palavras de Seu Jorge: o antes jovial e questionador rock dos anos 80 se tornou um senhor branco, arrogante, machista e conservador.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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