Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

O rock errou 3: a geração 90

Dando sequência aos artigos que tenho publicado sobre os posicionamentos políticos de alguns dos principais nomes do cenário pop/rock brasileiro, neste artigo trago breves considerações sobre o pessoal dos anos 1990.


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Diferentemente da década anterior, entre 1991 e 2000 o rock não esteve tão em evidência, a mistura com outros ritmos foi mais intensa e, principalmente, houve uma mudança significativa na origem social dos membros das principais bandas.

Ao contrário das bandas da geração dos anos 80, composta em sua grande maioria por indivíduos de classe média; as maiores referências da década de 1990 – como Chico Science & Nação Zumbi, Planet Hemp e Cidade Negra – tinham entre seus músicos jovens nascidos em áreas pobres.

Esse componente classicista é bastante importante para entendermos o porquê de nomes dos anos 80 como Lobão e Roger serem extremamente reacionários e, por outro lado, Marcelo D2 e B Negão, por exemplo, seguirem com seus discursos progressistas.

Trata-se da chamada “consciência de classe”.

No entanto, seria reducionista classificar a Geração 80 simplesmente como “classe média reacionária” e a Geração 90 como “classe trabalhadora progressista”.

O ex-vocalista do Rappa, Marcelo Falcão, por exemplo, já reproduziu várias vezes a narrativa moralista de que os políticos teriam saqueado a Petrobras durante os governos do PT.

Narrativa, aliás, que serviu como argumento principal para a nefasta Operação Lava Jato, que, inclusive, foi defendida por Andreas Kisser do Sepultura, em uma entrevista há três anos.

Por falar em Lava Jato, Sergio Moro (cada vez mais desmascarado pelos áudios divulgados pelo The Intercept Brasil) também já foi bastante elogiado por Samuel Rosa do Skank (este um coxinha assumido).

Durante uma apresentação na edição de 2013 do Rock in Rio, Samuel chegou a declarar: “Maconha é proibida, mas mensalão de novo pode, né?”.

Outra banda mineira dos anos 1990 adepta à direita é o Tianastácia que, em 2014, fez campanha para ninguém menos do que Aécio Neves. “O Brasil precisa de um governo eficiente, agora é Aécio”, disseram à época os vocalistas da banda durante um programa eleitoral.

Rogério Flausino, do Jota Quest, (assim como o seu irmão Wilson Sideral) também declarou apoio para o político tucano em 2014 e, um ano depois, celebrou os “coxinhatos” da Avenida Paulista em suas redes sociais.

Porém, nem tudo é reacionarismo na Geração 90 das Alterosas.

A amapaense/mineira Fernanda Takai participou de uma das edições do Festival Lula Livre, fato suficiente para que ela fosse alvo da ira dos haters nas redes sociais.

No entanto, a vocalista do Pato Fu não deixou por menos e escreveu em um tweet: “o block em bolsominions é terapêutico. Melhor que dr. Mario”.

Voltando aos reacionários, a esquecida banda Tijuana, durante os seus shows em 2016, apresentava a bandeira do Brasil e proferia discursos coxinhas favoráveis ao impeachment de Dilma Rousseff.

Já o guitarrista do Angra Rafael Bittencourt, quando aborda questões políticas em vídeos no Youtube, geralmente têm posturas típicas do liberalismo econômico, no melhor estilo “Partido Novo”.

Por sua vez, Rodolfo Abranches, ex-Raimundos, já defendeu a “cura gay” e deu declarações que “o governo comunista implantado pelo PT divide as pessoas para governar”. Mais fake news impossível.

Desse modo, assim como a Geração 80, os roqueiros dos anos 90 também têm os seus “reacionários” que, embora não sejam tão atuantes politicamente quanto os seus antecessores, mostram todo o seu conservadorismo através de posturas “indignadas”, “liberais” e “fundamentalistas”.

Enfim, independentemente de geração, estilo ou qualquer outro condicionante, boa parte dos roqueiros brasileiros tem se afastado do caráter revolucionário do Rock n´roll e servindo de correia de transmissão para discursos retrógrados.

Conforme bem apontou o blogueiro Gerson Nogueira, no Brasil o indivíduo consegue ser fã de Led Zeppelin e Offspring cantando promiscuidades, mas acha Pablo Vittar imoral; ama Roger Waters que defende a causa Palestina, mas chama imigrante de terrorista e se emociona com Beatles que fazia música subversiva pró-URSS, mas diz que nossa bandeira jamais será vermelha.

Lamentável contrassenso.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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