Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Paradoxos brasileiros

Tim Maia já dizia que o Brasil não poderia mesmo dar certo, pois em nosso país prostituta se apaixona, traficante se vicia, cafetão tem ciúmes e pobre é de direita.


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Tim Maia já dizia que o Brasil não poderia mesmo dar certo, pois em nosso país prostituta se apaixona, traficante se vicia, cafetão tem ciúmes e pobre é de direita.

Complementando o pensamento do velho Tim, podemos dizer que existem outros paradoxos que, assim como a jabuticaba, parecem ser típicos de terras tupiniquins.

O primeiro paradoxo inerentemente brasileiro é o “funcionário público neoliberal”, que, lembrando as palavras de Marilena Chauí, representa uma aberração cognitiva.

Ele defende o Estado mínimo, vota no Partido Novo (ou naquela que ele chama de “Coiso”, mas que no fim é a mesma “coisa), diz que na iniciativa privada não há “cabides de emprego”, reclama dos impostos, é contra as universidades federais e estaduais e vibra com as privatizações.

No entanto, alguém poderia contar que, em uma eventual aplicação extrema das políticas neoliberais, este funcionário público seria o primeiro a “rodar”, ou seja, perderia o seu emprego?

Também há o “negro racista”, que nos remete aos Capitães do Mato do período escravocrata.

Sua principal função é difundir a ideologia da elite branca e discursar contra todas as causas do povo negro. Ele é veemente contrário às cotas raciais, afirma que denunciar o racismo é “mimimi” ou “vitimismo” e demoniza figuras históricas como Zumbi dos Palmares.

Ainda na linha das minorias temos a clássica “mulher machista”. Para ela, uma moça que se veste com roupas curtas está procurando ser violentada, o homem deve mandar no relacionamento e, é claro, lugar de mulher é na cozinha. Paulo Freire sabiamente dizia: quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.

Falando em Freire, o que dizer do “professor que vota no PSDB? O típico exemplo da “Síndrome de Estocolmo”. Mesmo com todas as maldades que os governos tucanos fizeram (e ainda fazem) com a educação, ainda há docentes que apoiam políticos do partido de FHC.

Em suma, a lista é imensa e não caberia aqui, mas poderíamos também mencionar o “gay homofóbico” (para ele, orgulho LGBT é coisa de gente espalhafatosa), o “ator de filmes adultos moralista” (defensor da "tradicional família brasileira"), o "roqueiro conservador", o "fascista que bate continência à bandeira de outro país", o “cidadão de bem” (que de “bem” não tem nada), “o esquerdista que adota discursos imperialistas” e, é claro, a “classe média coxinha” que bateu panela, vestiu camisa da CBF e foi às ruas dançar em volta do Pato Amarelo para defender os interesses dos ricos.

Nesse sentido, seria importante alguém avisar que, infelizmente, eles não fazem parte da elite. Falta de consciência de classe dá nisso!

É tanta incoerência que talvez nem Freud conseguiria explicar.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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