Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Seis meses de um governo desastroso

Com seus devaneios, autoritarismos e medidas antipopulares, Bolsonaro, em apenas seis meses de governo, já pode ser considerado o pior presidente da história do Brasil.


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No final do mês de junho, o atual (des)governo brasileiro completa seu primeiro semestre.

Para as previsões mais pessimistas, Bolsonaro começaria o seu mandato como uma espécie de trator que esmagaria os direitos democráticos da população, entregaria todas as riquezas nacionais para os grandes capitalistas estrangeiros, perseguiria seus opositores, instalaria uma República Fundamentalista Evangélica e aprovaria, com folga, a cereja do bolo neoliberal: a reforma da previdência.

Em outros termos, esperava-se a verdadeira política de terra arrasada, com uma amálgama de fanatismo neopentecostal, fascismo e liberalismo econômico.

Por outro lado, as perspectivas mais otimistas acreditavam na queda imediata de Bolsonaro via pressão popular ou renúncia.

Conforme a realidade nos mostra, nem a visão pessimista, tampouco a visão otimista, se concretizaram.

No entanto, tudo indica que, devido ao fracasso do governo em colocar em prática sua política de terra arrasada, e também pelas crescentes mobilizações populares contrárias a Bolsonaro, temos mais motivos para estarmos otimistas do que pessimistas.

Porém, é importante não cair em um otimismo ingênuo.

A queda do governo Bolsonaro dependerá, sobretudo, do equilíbrio de forças entre as mobilizações populares, de um lado, e a elite econômica, de outro lado.

As instituições, como se sabe, não vão derrubar um governo que ajudaram a eleger (ao menos que seja para colocar outro com a mesma agenda política nefasta).

A eleição de Bolsonaro nada mais foi do que a concretização do golpe de 2016, que, lembrando as palavras de Romero Jucá, foi realizado “com o Supremo com tudo”.

É fato que o “mito”, por motivos óbvios, não era o candidato preferido dos golpistas.

No entanto, vide a grande impopularidade dos principais políticos ligados ao golpe, a direita teve que se voltar para o único nome que ainda possuía um certo apelo popular dentro do espectro conservador.

Foi assim que a burguesia brasileira decidiu (com certa ressalva) apoiar a caricata e apedeuta figura de Bolsonaro.

Valia tudo para que o PT não chegasse à presidência novamente.

Fazendo paralelos com outros contextos históricos, Bolsonaro têm funções similares as já desempenhadas por Jânio Quadros e Fernando Collor.

Assim como o ex-presidentes anteriormente citados, Bolsonaro não é do primeiro escalão dos políticos burgueses, foi eleito por um partido minúsculo e não conta com uma base parlamentar sólida.

Não por acaso, o presidente de extrema-direita insiste em afirmar que o fracasso de seu governo é culpa da intransigência do Congresso.

Coincidentemente, Jânio e Collor tiveram seus mandamentos precocemente interrompidos justamente por causa das más relações com o Legislativo.

Portanto, recorrendo a história, há motivos suficientes para considerarmos que dificilmente Bolsonaro terminará o seu mandato.

Mas também há outros motivos no presente.

As reportagens recentemente divulgadas pelo site “The Intercept Brasil” comprovando a perseguição judicial ao ex-presidente Lula e a blindagem a políticos tucanos colocaram em xeque a golpista Operação Lava Jato e a figura não menos fascista do Ministro Sergio Moro, um dos principais pilares do governo Bolsonaro.

Apesar de a Rede Globo seguir no apoio ao seu “juiz de estimação”, vários veículos da mídia golpista - como a Folha de São Paulo, Estadão e Veja - já se manifestaram contra Moro.

De maneira geral, a direita não se apega a nomes, mas a resultados.

Moro e a Lava Jato já cumpriram as suas funções, diretamente ditadas por Washington: impedir a candidatura Lula e quebrar o Brasil.

Além de Moro, outro pilar do chamado “núcleo de maldades” é o Ministro da Economia Paulo Guedes, cuja propósito é exclusivamente promover malfadada reforma da previdência para que o Estado brasileiro possa drenar ainda mais os seus recursos para os grandes banqueiros.

Caso a reforma não seja aprovada em curto prazo é praticamente certo que Guedes deixe o governo.

Diga-se de passagem, a burguesia brasileira tem se mostrado cada vez mais impaciente com a demora do governo Bolsonaro em aprovar a reforma.

Como alternativa a essa inércia bolsonarista até mesmo um impeachment não está descartado.

A burguesia quer maldades econômicas efetivas do governo Bolsonaro, e não medidas irrisórias como o fim do Horário de Verão, o abandono das tomadas de três pinos ou a extinção das multas pelo não uso de cadeirinhas em automóveis.

Outro atestado do fracasso do (des)governo Bolsonaro é o chamado “núcleo cômico”, representado por nomes como Damares Alves, Ernesto Araújo, Abraham Weintraub e o próprio Bozo.

Abraham Weintraub, por exemplo, tem enfrentado inúmeros protestos de estudantes contrários ao seu projeto de sucateamento da educação pública.

Sem dúvida, mais uma derrota do governo.

Em suma, com seus devaneios, autoritarismos e medidas antipopulares, Bolsonaro, em apenas seis meses de governo, já pode ser considerado o pior presidente da história do Brasil.

Sua queda está cada está cada mais próxima. Sendo assim, conforme o já ressaltado, se após Bolsonaro teremos um governo tão pernicioso quanto (Mourão, por exemplo); ou se a sua queda abrirá a oportunidade para um governo mais à esquerda, somente o equilíbrio de forças entre campos progressistas e reacionários dirá.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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