Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Sobre a ingenuidade da esquerda brasileira

Em um país onde a mão pesada da lei é basicamente para pobre e esquerdista, pleitear mais poderes para os aparelhos repressivos do Estado significa aumentar mais ainda a perseguição a pobres e esquerdistas.


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Se há uma questão que temos que admitir sobre os antagonismos ideológicos no Brasil diz respeito ao fato de que, em relação à astúcia política, a direita (infelizmente) está a anos-luz à frente da esquerda (ou pelo menos grande parte dela).

Utilizando uma metáfora, isso significa que indivíduos que se consideram do campo progressiva frequentemente caem nas arapucas estrategicamente feitas pelos setores conservadores.

Conforme já bem advertiu o sociólogo Jessé Souza, o moralista discurso contra a corrupção estatal (criado pela intelligentsia conservadora brasileira para escamotear o assalto ao Estado promovido pelos agentes do mercado) é um exemplo emblemático de armadilha ideológica comprada pela esquerda.

Isso explica a grande adesão esquerdista a dois recentes Cavalos de Troia da política nacional: a “Lei da Ficha Limpa” e a “Operação Lava Jato”.

Aprovada no final do mandato do presidente Lula, e celebrada praticamente de forma unânime pela esquerda parlamentar, a Lei Complementar nº. 135 de 2010, mais conhecida como Lei da Ficha Limpa, impede que políticos condenados em segunda instância possam concorrer a cargos eletivos durante oito anos.

Trata-se de uma clara interferência do tendencioso e antidemocrático Poder Judiciário no processo eleitoral.

Assim, os juízes, e não o povo, decidem quem serão os nossos representantes nos poderes Legislativo e Executivo.

Conforme é do conhecimento de todos, os políticos dos tradicionais partidos de direita são, de longe, os mais corruptos; mas adivinhem qual importante nome do cenário nacional foi vítima de um processo judicial altamente fraudulento e, não obstante, foi impedido de participar da corrida presidencial justamente por causa da Lei da Ficha Limpa?

Sim, ele mesmo: Luiz Inácio Lula da Silva.

Falando em Lula, a anteriormente citada Operação Lava Jato, conforme exaustivamente já demonstraram os áudios divulgados pelo The Intercept Brasil, foi criada em 2014 para sucatear a Petrobras, entregar o nosso petróleo para o capital estrangeiro e, de quebra, inviabilizar eleitoralmente o ex-presidente petista.

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Mas, o que fez boa parte da esquerda nesses cinco anos de Lava Jato? Não denunciou essa operação por crime de lesa-pátria?

Pelo contrário, nomes como Luciana Genro, Marcelo “Janaina Paschoal” Freixo e o próprio candidato do PT na última campanha presidencial, Fernando Haddad, já elogiaram publicamente a Lava Jato.

Se hoje estão arrependidos, aí é outra história.

O juiz Marcelo Bretas, que ganhou notoriedade ao julgar casos relacionados à Operação Lava Jato no Rio de Janeiro, é presença constante em encontros promovidos pelos “progressistas” Caetano Veloso e Paula Lavigne.

Aliás, reforçar o poder repressivo do Estado capitalista parece ser uma obsessão para a esquerda ingênua.

Leis aparentemente bem-intencionadas (mas só “aparentemente” mesmo) que criminalizam o racismo e a homofobia, por exemplo, podem se constituir em verdadeiros Cavalos de Troia para a esquerda.

Ultimamente, denunciar o racismo da direita brasileira pode acarretar em processo por...injúria racial. Como assim?

Vejamos os casos de Paulo Henrique Amorim e Ciro Gomes.

Em 2009, Paulo Henrique publicou em seu site “Conversa Afiada” que o jornalista da TV Globo Heraldo Pereira era “negro de alma branca”, o que significa, corretamente, que Heraldo, ao trabalhar em uma emissora voltada para a difusão da ideologia do dominador branco, prestava um desserviço à comunidade negra.

Lembrando Paulo Freire, trata-se do oprimido que adotou o opressor.

É fato que a expressão “negro de alma branca”, descontextualizada, realmente possui uma conotação racista, brecha suficiente para Heraldo processar Amorim e sair vitorioso.

Nessa mesma linha, Ciro Gomes se dirigiu a Fernando Holiday (negro contrário às cotas raciais, que difunde a ideia de que denunciar o racismo que vigora no Brasil é discurso vitimista) pelo sugestivo epíteto de “capitãozinho do mato”, em uma analogia histórica aos negros que capturavam escravos fugidos.

Resultado: Ciro Gomes foi condenado a indenizar Fernando Holiday.

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Seria demasiadamente pueril acreditar que indivíduos ricos, poderosos e conservadores – os verdadeiros racistas e homofóbicos – sofrerão algum tipo de sanção por causa de suas ideias e atitudes preconceituosas.

Em um país onde a mão pesada da lei é basicamente para pobre e esquerdista, pleitear mais poderes para os aparelhos repressivos do Estado significa aumentar mais ainda a perseguição a pobres e esquerdistas.

Se a esquerda ingênua tivesse compreendido o conteúdo do clássico ensaio do filósofo marxista francês Louis Althusser, Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado, certamente evitaria determinados contratempos.

Mas, mesmo com os exemplos acima, a esquerda continua, ingenuamente, caindo nas armadilhas da direita.

Recentemente, o Congresso aprovou uma lei que pune, com penas que variam entre dois a oito anos de reclusão, quem divulgar notícias falsas, as chamadas fake news, durante períodos eleitorais.

Para variar, grande parte da esquerda comemorou efusivamente este fato, pois, afinal de contas, no último pleito, o exército bolsonarista inundou as redes sociais com as mais variadas fake news.

Pois bem, 2020 está aí, teremos eleições municipais, e não é difícil inferir quem irá para a cadeia por causa das notícias falsas.

Um bolsominion? Não. Alguém da esquerda, é claro.

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Até a polêmica questão amazônica, assunto exaustivamente debatido nos últimos dias, está contemplada na ingenuidade da esquerda.

Como vemos nos noticiários, a maior floresta equatorial do planeta está em chamas; e o governo brasileiro, apesar de não ter diretamente ateado fogo na mata, com os seus discursos pró-degradação ambiental, tem incentivado, de alguma forma, os incêndios na Amazônia.

Diante da incapacidade Planalto em lidar com a sua maior riqueza vegetal, o presidente da França Emmanuel Macron “fraternalmente” sugeriu a que a Amazônia fosse administrada por uma espécie de governança global, capitaneada pelo G7, grupo dos países mais ricos do planeta.

Ora, deixar a Floresta Amazônica sob a direção dos países imperialistas é o mesmo que deixar a raposa tomar conta do galinheiro.

Mas, adivinhem qual o posicionamento da esquerda que considera que ser favorável a Macron significa atacar o governo Bolsonaro?

Se depender deles, a Amazônia não será mais nossa.

Em suma, com uma esquerda ingênua assim, a direita pode dormir, acordar e se levantar tranquila.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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