Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Sobre a necessidade de ter que explicar o óbvio

Numa época em que astrólogos são considerados filósofos, youtubers substituem professores e atores de filmes adultos se transformam em conselheiros educacionais, basta que alguém faça uma postagem nonsense na internet para que, em um clique, o conhecimento humano regrida milhares de anos.


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Antes do advento das redes sociais, ou seja, até uma década e meia atrás, questões como o formato da Terra, o caráter golpista do movimento civil-militar de 31 de março de 1964, a eficácia de determinadas vacinas ou a associação do nazismo à extrema-direita, por serem bastante óbvias, não eram colocadas em xeque.

É fato que, muitos indivíduos, por ignorância, falta de acesso à informação ou mesmo desonestidade intelectual, duvidavam de alguma das questões anteriormente citadas.

No entanto, eles limitavam suas falsificações históricas e científicas ao seu círculo de convívio direto, não expondo seus posicionamentos controversos em larga escala.

Todavia, essa realidade mudou com a popularização da internet, pois a partir do momento em que um usuário acessa a rede mundial de computadores e percebe que as suas ideias descabidas também são compartilhadas por outros internautas, independentemente da localização geográfica, ele se sente fortalecido, perde o senso do ridículo, e não teme em expor os aspectos mais obscuros de seu pensamento.

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Pelo menos nos últimos três séculos, qualquer cidadão em sã consciência não questionava o formato geoide da Terra ou tampouco o modelo heliocêntrico, o que significa entender que a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário, como se acreditava em outras épocas.

Porém, para os chamados “terraplanistas”, os estudos de pensadores como Nicolau Copérnico, Isaac Newton, Carl Friedrich Gauss ou Albert Einstein, entre tantos outros gênios que a humanidade produziu, podem ser facilmente refutados, pois simplesmente a Terra seria “plana”.

Não obstante, o grande número de crianças e jovens que participam de comunidades virtuais dedicadas à “Terra Plana” é um alerta para pais e professores, sobretudo aqueles que lecionam Ciências, Geografia e Física.

Aliás, falando em sistema educacional, não é raro encontrarmos no espaço virtual pessoas que defendem o fim do ensino da Teoria da Evolução de Charles Darwin nas escolas, prática qualificada por eles como “cientificismo”.

Não por acaso, uma pastora evangélica que quase assumiu o posto de Secretária Executiva do Ministério da Educação, durante uma entrevista para um programa da TV “Feliz Cidade” afirmou que na escola onde ela era diretora se ensinava que “o autor da história é Deus, o realizador da geografia é Deus, o maior matemático foi Deus".

Ainda nessa mesma linha, muitos indivíduos questionam a eficácia de determinadas vacinas que foram responsáveis, entre outros fatores, pelo aumento da longevidade do ser humano.

Nesse caso, o ceticismo pode gerar sérios danos à saúde, como foi o caso de Massimiliano Fedriga, porta-voz do movimento antivacina na Itália, internado recentemente justamente por contrair sarampo.

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A internet também se tornou um campo fértil para grotescas falsificações históricas.

Segundo o renomado historiador Jürgen Zarusky, do Instituto para História Contemporânea Munique-Berlim, basta uma rápida olhada nas origens do movimento nazista para descartar completamente a ideia de que o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães fosse de esquerda, pois o nazismo era profundamente enraizado em tendências extremistas de direita que já existiam ao fim da Primeira Guerra Mundial.

Entretanto, mesmo com a hipótese de que o nacional-socialismo teria sido um fenômeno de esquerda sendo considerada um absurdo na Alemanha e que nenhum historiador profissional classifique a ditadura nazista como de esquerda, nas redes sociais milhares de “especialistas” e youtubers teimam em debater sobre a orientação ideológica do nazismo.

Já outras “releituras históricas”, também baseadas em “achismos ideológicos” e não em comprovações, apontam que a escravidão de negros no Brasil foi somente a continuidade da escravidão que já existia na África.

O principal “argumento” daqueles que tacitamente defendem o regime escravocrata: “negros também escravizavam brancos em grande escala”.

Também há aqueles que negam o golpe militar de 1964 (qualificado como “contrarrevolução”) e o posterior regime ditatorial que durou duas décadas. Enfim, a lista de equívocos e controvérsias (infelizmente) é imensa, e não caberia neste breve artigo.

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Em pleno século 21, quando poderíamos debater questões absolutamente importantes como o fim da fome, o combate aos vários tipos de preconceito, os direitos das minorias ou a erradicação de determinadas doenças, temos que perder tempo tentando explicar o óbvio.

Embora a internet seja a maior invenção humana no tocante à liberdade de expressão, ela também tem os seus efeitos colaterais, como dar voz à discursos intolerantes e pensamentos absurdos.

Numa época em que astrólogos são considerados filósofos, youtubers substituem professores e atores de filmes adultos se transformam em conselheiros educacionais, basta que alguém faça uma postagem nonsense na internet para que, em um clique, o conhecimento humano regrida milhares de anos.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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