Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Teria o rock encaretado?

Os jovens roqueiros de outrora se tornaram aquilo que mais repudiavam e temiam: velhos rabugentos, conservadores e caretas


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Entre os diversos ritmos musicais existentes no planeta, o rock n' roll é, certamente, um dos mais contestadores e revolucionários.

Surgido como uma espécie de versão acelerada do blues (estilo musical de origem negra) o rock n' roll chocou a puritana e moralista sociedade estadunidense dos anos 50, a ponto de Elvis Presley só poder aparecer na televisão se fosse filmado acima da cintura (para não corromper a juventude com o seu gingado).

Na década seguinte, cerca de 500 mil jovens se reuniram para repudiar a Guerra do Vietnã e celebrar a paz e o amor livre no clássico festival de Woodstock.

Já com o rock globalizado, no final dos anos 70, foi a vez de os Sex Pistols decretarem a anarquia no Reino Unido em pleno Jubileu de Prata da rainha Elizabeth II.

Nos últimos anos, muitos roqueiros ainda mantém posturas politicamente engajadas, como são os casos de Sting, conhecido ativista da causa indígena; Bono Vox, militante pelos direitos das populações do continente africano; e Roger Waters, que tem denunciado para o mundo o genocídio cometido pelo Estado de Israel contra o povo palestino.

Enfim, mais do que um mero ritmo musical, o rock também é um estilo de vida, uma "atitude".

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No entanto, mesmo com a atmosfera revolucionária que historicamente paira sobre o rock, um tipo um tanto quanto paradoxal tem ganhado cada vez mais destaque na grande mídia e nas redes sociais.

Trata-se do "roqueiro conservador".

Embora outras épocas já tivessem registros de "roqueiros caretas", como o já citado Elvis, e Johnny Ramone, o "punk pró-sistema"; foi somente nas últimas décadas, com o envelhecimento dos roqueiros, que o tipo social contraditório anteriormente mencionado tornou-se mais corriqueiro.

Alguns, inclusive, possuem posicionamentos ideológicos próximos à extrema-direita. Phil Anselmo, ex-vocalista da banda de heavy metal Pantera, é conhecido por seus discursos racistas, que exaltam a (falaciosa) supremacia branca.

Algo absolutamente sem sentido, pois o próprio rock tem suas raízes na musica negra.

Por sua vez, o guitarrista Ted Nugent já declarou que o grande erro dos Estados Unidos no Iraque foi não ter bombardeado aquele país da mesma forma que fez com o Japão no final da Segunda Guerra.

Já o cantor Morrissey, membro do lendário quarteto britânico The Smiths, tem demonstrado publicamente seu apoio à ultradireitista Anne Marie Waters, fundadora do partido For Britain, inclusive se apresentando na TV estadunidense com um broche dessa organização política.

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Também no Brasil a situação não é muito diferente.

Alguns dos músicos da geração do rock nacional dos anos 80, que em suas composições questionavam o status quo da época; hoje se alinharam ao que há de mais retrógrado no cenário político nacional, reproduzindo o moralista discurso anticorrupção, dando declarações preconceituosas ou posando para fotos com magistrados tendenciosos.

Conforme já cantava Cazuza: aqueles garotos que iam mudar o mundo, agora frequentam as festas do "Grand Monde".

Muitos analistas relacionam o conservadorismo de parte da chamada "Geração 80" à origem social de seus membros.

Como típicos indivíduos da classe média alta, enquanto jovens, eles se rebelaram contra a sua classe, se posicionando a favor dos estratos inferiores da população; e, depois de velhos, como bons “filhos ingratos arrependidos”, retornaram aos interesses de seus iguais.

Parafraseando Belchior, "ainda são os mesmos e vivem como os seus pais". Outra explicação possível é o fato de que esses artistas, sem produzir algo inédito há tempos, para continuarem a ter espaço na grande mídia, devem se alinhar aos discursos conservadores dos principais grupos de comunicação do Brasil.

Isso nos auxilia a entender o porquê de o "ex-rebelde" Lobão dar declarações que beiram ao fascismo (com direito à exaltações ao regime militar) e do Ultraje a Rigor ter se transformado em uma simples banda de apoio no programa do humorista neocon Danilo Gentili.

Inclusive Roger Moreira, vocalista do Ultraje, tem se notabilizado por suas discussões nas redes sociais cujo principal "argumento" é direcionar xingamentos pessoais a quem pensa diferente.

Em suma, os jovens roqueiros de outrora se tornaram aquilo que mais repudiavam e temiam: velhos rabugentos, conservadores e caretas.

Como já dizia Chico Buarque (este sim, um questionador nato): "quem te viu, quem te vê".


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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