Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Um ano de incertezas

Por uma dessas trágicas coincidências da história, no ano em que o AI-5 completou seu cinquentenário, o espectro do autoritarismo esteve bastante presente em nosso país. Nesse sentido, esperamos que a última virada de ano realmente tenha sido de “2018 para 2019” e não “2018 para 1964”.


retrospectiva-2018.jpg

O ano que está terminou foi marcado por importantes pautas que mobilizaram a agenda pública nacional. Em 2018, foi praticamente impossível para qualquer cidadão brasileiro minimamente informado ficar indiferente ou não ter um posicionamento sobre questões como a execução da vereadora carioca Marielle Franco, a prisão do ex-presidente Lula, a Greve dos Caminhoneiros, a Copa do Mundo da Rússia ou o incêndio do Museu Nacional. Mas, sem dúvida alguma, o principal acontecimento do ano foram as eleições para deputados, governadores, senadores e presidente da República.

Radicalismos ideológicos, facada em candidato, xingamentos nas principais redes sociais, brigas familiares e disseminação em larga escala de notícias falsas pelo WhatsApp marcaram o pleito em que os brasileiros elegeram pela primeira vez em sua história um presidente de extrema-direita, que fala abertamente contra homossexuais, negros e indígenas (entre outras minorias), defende a posse de armas e elogia o regime militar – a ponto de fazer apologia a tortura. Tratou-se assim da concretização do golpe de Estado que se iniciou há dois anos com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

A partir deste mês de janeiro, as reformas antipopulares propostas pelo governo interino de Michel Temer poderão, enfim, ser colocadas em prática, sob o verniz da “legitimidade das urnas”.

Durante a curta campanha eleitoral, a grande mídia brasileira agiu conforme o esperado: partiu para o ataque em relação aos políticos da esquerda (tendo como “argumento” a seletiva e moralista campanha contra a corrupção) e, em contrapartida, resguardou candidatos de legendas à direita. Nos debates televisivos entre presidenciáveis, o que se viu foram candidatos poucos inspirados, sendo o único “destaque” o candidato do Patriota, Cabo Daciolo, e suas “teorias da conspiração”, como a URSAL e a “nova ordem mundial”.

untitled.png

Por outro lado, a relação entre a mídia hegemônica e Jair Bolsonaro foi bastante complexa. No início da campanha, houve alguns atritos (como o famoso bate-boca e troca de farpas entre Bonner, Renata Vasconcellos e Bolsonaro no Jornal Nacional). Já a facada de Adélio Bispo do Santos em Bolsonaro foi transformada em um grande evento midiático. Por fim, com a candidatura bolsonarista despontando como a única com chances de derrotar o PT, a grande mídia em peso aderiu à chapa do PSL.

Em nosso país, 2018 também ficou marcado pelo surto de febre amarela, pela intervenção federal no estado do Rio de Janeiro, pelas denúncias de assédio sexual contra o médium João de Deus e pelos falecimentos da sambista Dona Ivone Lara, da atriz Beatriz Segall (a “Odete Roitman”), do baixista Arthur Maia e do grande jornalista Alberto Dines, fundador do Observatório da Imprensa.

O ano recém-terminado nos trouxe poucas notícias positivas como o excelente desfile da Escola de Samba Paraíso do Tuiuti (que denunciou os obscurantismos do Estado brasileiro no passado e no presente), o resgate de doze garotos e seu técnico de futebol que ficaram presos 17 dias em uma caverna na Tailândia e o arquivamento do nefasto projeto “Escola Sem Partido” (talvez o maior dano à educação brasileira em toda a sua história).

xFRANCE-SOCIAL-POLITICS-ENVIRONMENT-OIL-DEMO.jpg.pagespeed.ic.BL9wtMVjdB.jpg

Na geopolítica internacional, o maior acontecimento foram as tentativas de aproximação entre Estados Unidos e Coreia do Norte. No entanto, a grande imprensa brasileira reduziu os complexos antagonismos entre estadunidenses e norte-coreanos a uma mera desavença pessoal entre Trump e Kim Jong-um e a um conflito entre o “bem” (EUA) e o “mal” (Coreia do Norte).

Já a crise da globalização e a falências das políticas neoliberais se fizeram presente nas manifestações da população húngara contra a reforma trabalhista proposta pelo governo de extrema-direita daquele país; nos “Coletes Amarelos” que pediram a renúncia do “apartidário” e “queridinho do mercado” Emanuell Macron e na grave crise da Argentina.

Ainda nos noticiários internacionais, tivemos a eleição do primeiro presidente de esquerda no México, a crise venezuelana, a grande migração de centro-americanos para os Estados Unidos, os falecimentos da cantora Aretha Franklin, da vocalista do Cranberries Dolores O'Riordan e do físico Stephen Hawking; a maior final da história da Libertadores da América (River Plate e Boca Juniors), o título francês na Copa do Mundo da Rússia e, no apagar das luzes de 2018, assistimos atônitos às cenas da tsunami que atingiu a costa da Indonésia.

duke .png

Por uma dessas trágicas coincidências da história, no ano em que o AI-5 completou seu cinquentenário, o espectro do autoritarismo esteve bastante presente em nosso país.

Nesse sentido, esperamos que a última virada de ano realmente tenha sido de “2018 para 2019” e não “2018 para 1964”.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Francisco Fernandes Ladeira