Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Unidos dos coxinhas, ou como seria uma escola de samba das forças conservadoras

O presente artigo faz uma análise sobre como seria uma escola de samba organizada pelos setores conservadores da sociedade brasileira: a "Unidos dos Coxinhas".


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Com um enredo que propôs narrativas alternativas à história oficial" do Brasil - isto é, a partir das perspectivas dos oprimidos, em vez da versão contada pelos "vencedores" - a Estação Primeira de Mangueira, merecidamente, chegou ao seu vigésimo título do carnaval carioca.

Pegando um gancho no exemplo mangueirense, poderíamos especular como seria uma hipotética escola de samba dirigida pelos setores mais reacionários e delirantes de nossa sociedade, representados por aqueles indivíduos que ficam nas redes sociais criando suas "próprias verdades".

Para eles, no alto de seus devaneios, mesmo a chamada "história oficial" é contada por acadêmicos considerados "comunistas".

Portanto, daremos a essa hipotética agremiação o nome de "Unidos dos Coxinhas”.

Sendo assim, vamos imaginar como essa escola reescreveria a nossa história. Aliás, essa visão deturpada e tendenciosa do passado já possui uma nomenclatura: "politicamente incorreto".

Também é importante frisar que o exercício mental aqui proposto se trata de uma tarefa demasiadamente complexa, pois os próprios coxinhas, de maneira geral, odeiam o carnaval, considerada por eles como uma festa promíscua, que estimula o chamado “golden shower”, entre outras atividades.

No tocante ao desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, em especial, os coxinhas sempre alegam que as agremiações são mantidas pelo tráfico de drogas ou pelo jogo do bicho e, demonstrando um falso altruísmo, sugerem que o dinheiro que o poder público gasta com as escolas de samba deveria ser destinado para áreas prioritárias como saúde e educação, desconhecendo cabalmente o fato de que o retorno financeiro do desfile realizado na Marquês de Sapucaí é muito maior do que o investimento realizado.

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Feitas às devidas ressalvas, vamos a "história" contada pela "Unidos dos Coxinhas".

O enredo é: "Guia Politicamente Incorreto: a história que os livros petistas do MEC não te contaram" (sim, eles acreditam que o MEC produz livros didáticos, em vez de selecioná-los entre algumas opções possíveis).

Se a comissão de frente da Mangueira privilegiou os "heróis anônimos" e as minorias sociológicas em detrimento dos "heróis oficiais" emoldurados em quadros de todo o país, a “Unidos dos Coxinhas”, logo em sua apresentação, procuraria ridicularizar negros, mulheres, pobres, indígenas e LGBTs, pessoas que, segundo eles, utilizariam do “vitimismo” para conseguir “privilégios” como as cotas raciais, o Bolsa Família e a Lei Maria da Penha.

A bandeira da “Unidos dos Coxinhas” jamais seria vermelha. Seguindo a tendência do momento, seria verde, amarela e, é claro, “alaranjada”, para combinar com o seu líder máximo.

Enquanto nas fantasias da Mangueira predominam o verde e rosa; na “Unidos dos Coxinhas”, seguindo a cartilha "Damares que vem para bem", meninas vestem rosa e meninos vestem azul.

De maneira geral, o desfile dessa hipotética escola conservadora seguiria as ideias do chamado "cidadão de bem". O carro abre-alas, em defesa da tradicional família brasileira, teria como destaque o ator de filmes adultos Alexandre Frota.

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Para não falarem por aí que a “Unidos dos Coxinhas” não tem representatividade, Fernando Holiday seria o principal nome da ala em homenagem aos Capitães do Mato, que, segundo a “Unidos dos Coxinhas”, seriam os verdadeiros heróis negros, pois prestaram importantes serviços para manter a ordem pública.

A escola também relembraria a “Marcha da Família com Deus Pela Liberdade”, importante acontecimento que ajudou o Brasil a se livrar do perigo comunista.

Falando nisso, o golpe de 1964 e a posterior ditadura militar seriam destacados no carro-alegórico que faz apologia à tortura de subversivos.

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No entanto, se engana quem acha que o Brasil não teve experiências comunistas.

Nesse sentido, a “Unidos dos Coxinhas” reescreveria a história, e classificaria os governos de FHC, Lula e Dilma devidamente como “comunistas”.

Os revisionismos históricos também apareceriam nas alas e carros-alegóricos que negam o genocídio de indígenas, a escravidão, o regime militar (para eles, qualificado como “revolução”) e o Massacre do Carandiru (afinal de contas, “bandido bom é bandido morto”).

Não obstante, “verdades” escondidas da população como o “kit gay” de Fernando Haddad, a “doutrinação comunista” nas escolas, o “cientificismo” ensinado nas salas de aula, a “ideologia de gênero” em que os professores adeptos do “marxismo cultural” incentivam a homossexualidade entre os alunos e a pedagogia petista de Paulo Freire seriam, enfim, desmarcadas pelo desfile da “Unidos dos Coxinhas”.

Outros destaques da escola seriam o enorme Pato Amarelo, em torno do qual dançariam passistas da classe média e suas inseparáveis panelas; o carro-alegórico da operação Lava-Jato com os seus magistrados “imparciais” e a ala do projeto “Escola Sem Partido”.

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Já o último carro-alegórico, com uma bandeira gigante dos Estados Unidos para se bater continência, faria uma homenagem ao maior ídolo coxinha e o principal responsável por banir de vez o perigo comunista no Brasil.

É claro que estamos falando sobre ele: o “mito”.

A partir do slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, a “Unidos dos Coxinhas” encerraria o seu desfile contanto os maiores “feitos” do “mito”, como a obrigação de educadores filmarem seus alunos cantando o Hino Nacional, a Reforma da Previdência e, é claro, a aplicação em larga escala dos preceitos neoliberais, pois, afinal de contas, um coxinha que se preze é “conservador nos costumes e liberal na economia”.

Seria bastante cômico, se também não fosse demasiadamente trágico.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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