Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Zeca Dirceu e a esquerda lacradora

Enquanto a extrema-direita tem crescido em todo o planeta, justamente pelo fato de utilizar um vocabulário simples e acessível às massas, boa parte da esquerda – sobretudo aquela ligada às pautas identitárias – recorre à quinhentas teorias sociológicas e problematizações prolixas para apresentar as suas propostas políticas. Diante dessa realidade, não é por acaso que, em relação à chamada “esquerda pós-moderna”, a direita pode dormir tranquila.


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Um dos assuntos mais comentados nas redes sociais nos últimos dias foi a discussão entre o deputado federal Zeca Dirceu (PT-PR) e o ministro da economia Paulo Guedes durante uma sessão da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) sobre a Reforma da Previdência.

Ao questionar o ministro sobre a proposta de mudança no regime previdenciário brasileiro, Zeca afirmou que Guedes agiria como “tchutchuca” com ricos e “tigrão” com os mais pobres, em alusão à uma música do grupo “Bonde do Tigrão”, que fez bastante sucesso no início da década passada. Prontamente, o ministro retrucou dizendo que “tchutchuca” seriam a mãe e a avó do deputado petista.

De uma maneira geral, podemos dizer que o parlamentar conseguiu transpor para uma linguagem popular o que está por trás não somente da Reforma da Previdência, mas do projeto econômico neoliberal do atual governo, que, ao diminuir os investimentos sociais do Estado e, não obstante, continuar a garantir a alta lucratividade do grande capital rentista, colocará em prática medidas que favorecerão os setores mais abastados de nossa sociedade e, em contrapartida, vão prejudicar os setores economicamente mais vulneráveis da população.

Conforme bem apontou o economista Carlos Fernandes, em artigo publicado no Diário do Centro do Mundo, não se trata de defender a vulgarização do debate institucional ou tampouco elogiar determinadas posturas pouco convencionais de parlamentares no exercício de suas atividades públicas, mas, num momento conturbado como o atual, em que os direitos sociais duramente conquistados pelos trabalhadores brasileiros correm o sério risco de serem sumariamente eliminados, o que Zeca Dirceu proporcionou foi a forma mais eficiente para que toda a população, sobretudo a de menor renda e menos escolarizada, entendesse claramente do que está se tratando na reforma previdenciária e, assim, possa melhor se organizar e se mobilizar contra todos os ataques que temos sistematicamente sofrido nos últimos anos.

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Evidentemente, a declaração de Zeca Dirceu sofreu ataques enfurecidos por parte da elite econômica e seus porta-vozes na grande mídia e na internet, que prontamente destacaram o fato de o deputado petista ser investigado pela Operação Lava-Jato desde 2017. Para Augusto Nunes da revista Veja, recorrendo à verborragia venenosa que lhe é habitual, Guedes poupou Zeca do pior dos insultos, o que significaria mencionar que ele é filho do ex-ministro José Dirceu.

O comentarista de política da TV Gazeta, Josias de Souza, comparou Zeca Dirceu e os deputados petistas que sabatinaram Paulo Guedes a “cachorros que esconderam ossos e esqueceram a localização do esconderijo”.

Por sua vez, o jornalista da Rede Globo Alexandre Garcia, um dos árduos defensores da Reforma da Previdência, acusou Zeca Dirceu de “radical” e de falta de argumentos.

Já o MBL (Movimento Brasil Livre), em solidariedade a Guedes, colocou à venda em seu site uma camiseta com frase "tchutchuca é mãe, é a vó".

Se os ataques conservadores à declaração de Zeca Dirceu já eram esperados, causou certa surpresa o fato de que pessoas que se consideram à esquerda do espectro político terem repudiado a fala do parlamentar petista, pois, afinal de contas, todos teriam o mesmo objetivo, que é impedir a Reforma da Previdência.

Em sua conta no Instagram, Manuela D’Ávila afirmou que a provocação feita por Zeca Dirceu a Paulo Guedes, devido ao uso do pejorativo termo “tchutchuca”, foi uma colocação desrespeitosa às mulheres, uma vez que estaria desprezando o sexo feminino e qualificando-o como “frágil”.

De acordo com Manuela, “piadas vinculando o Ministro Paulo Guedes com meninas, mulheres e tchuchucas não tem graça nenhuma porque nós mulheres não somos mais fracas nem somos as responsáveis por essa desgraça de governo. [...] Vamos lutar juntxs contra a reforma da previdência, porém aprendendo no caminho a não ser um machista de esquerda”.

Nessa mesma linha “problematizadora”, a blogueira Luiza Sahd escreveu no Uol que Paulo Guedes ficou possesso ao ser chamado de “tchutchuca” porque ele teria se sentido comparado a uma mulher. Para a blogueira, tanto a provocação de Dirceu, quanto à resposta de Guedes mencionando à progenitora e a avó do deputado seriam indícios do ódio às mulheres enraizado em nossa sociedade.

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Ora, ao que tudo consta, Zeca Dirceu não queria ofender às mulheres em sua declaração, mas apenas demonstrar a “doçura” de Guedes com os ricos e a “agressividade” com os pobres.

Lembrando as palavras de Nathalí Macedo, em artigo no Diário do Centro do Mundo, tratou-se de uma “lacrada” desnecessária de Manuela D’Avila. “É por isso que nem a esquerda suporta mais a esquerda – ou ao menos essa nova esquerdx cerveja artesanal que paga $100 em um canudo de alumínio e substitui as vogais por X.É muita problematização chique. É muita sede de lacração. É muita falta de senso de humor”, escreveu Nathalí.

Se, como muitos dizem, as postagens de Bolsonaro no Twitter demonstram que ele ainda não saiu da quinta série, as “lacrações” de Manuela D’Ávila nas redes sociais também compravam que ela ainda não saiu do DCE universitário.

Por outro lado, em muitas ocasiões, uma suposta defesa dos direitos das mulheres é utilizada por alguns indivíduos para demonizar o funk carioca, ritmo musical originário de comunidades carentes. Assim, o que incomodaria no termo “tchutchuca” não seria necessariamente sua conotação misógina, mas a sua origem popular.

Ou seja, o argumento de combater um preconceito (misoginia) seria utilizado para praticar outro tipo de preconceito (classicismo).

Além do mais, em uma das únicas oportunidades em que a esquerda conseguiu dominar a agenda pública nacional nos últimos meses – a hashtag #TchutchucaDosBanqueiros chegou a ficar em quarto lugar entre os assuntos mais comentados no Twitter – algumas pessoas que se consideram parte das chamadas “forças progressistas” do país, em vez de lutar contra o inimigo em comum, ficam problematizando questões de gênero.

Aliás, não é só no Brasil que isso acontece.

Enquanto a extrema-direita tem crescido em todo o planeta, justamente pelo fato de utilizar um vocabulário simples e acessível às massas, boa parte da esquerda – sobretudo aquela ligada às pautas identitárias – recorre à quinhentas teorias sociológicas e problematizações prolixas para apresentar as suas propostas políticas.

Diante dessa realidade, não é por acaso que, em relação à chamada “esquerda pós-moderna”, a direita pode dormir tranquila.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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