Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros.

Este artigo discorre sobre o caráter fascista do bolsonarismo.


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É fato que o bolsonarismo, principal pilar da extrema-direita no Brasil contemporâneo, possui características nitidamente fascistas.

No entanto, nas redes sociais, quando alguém faz um comentário mencionando o caráter fascista do movimento dos seguidores de Jair Bolsonaro, é comum que um integrante da milícia digital bolsonarista (também conhecida como “gado”) pergunte cinicamente: “o que é fascismo? ”.

Não é fácil debater com bolsonaristas. Via de regra, eles não levam em conta argumentos nem fatos concretos; são guiados por convicções e no principal mandamento da seita: a infalibilidade do “mito”.

Como todo dogma, o que Bolsonaro diz é, incontestavelmente, a “verdade”. Quem discordar é “comunista”, “torce contra o Brasil” ou, no caso de ex-bolsonaristas, é “traidor”.

Pois bem, para corroborar a hipótese de que o bolsonarismo é um movimento fascista, nada melhor do que recorrer às palavras de quem cresceu e se alfabetizou no berço do fascismo (a Itália dos anos 30 e 40) e, na escola, teve que decorar os discursos raivosos de Benito Mussolini.

Trata-se do famoso escritor Umberto Eco (1933-2016), que, ao longe de sua profícua obra, buscou decifrar quais movimentos seriam espécies de “filhotes modernos” do fascismo italiano, definindo-os como exemplos de “ur-fascismo” ou “fascismo eterno”.

Segundo Eco, algumas caraterísticas nos auxiliam a identificar o “ur-fascismo”. São elas: o nacionalismo agressivo, o ódio contra as minorias, o machismo violento, a exaltação do líder e a obsessão por teorias conspiratórias.

Não por acaso, todas as caraterísticas listadas pelo escritor italiano se aplicam ao bolsonarismo, conforme descrito abaixo.

Nacionalismo agressivo

Bolsonaristas se consideram os legítimos patriotas.

Não por acaso, usam as cores da bandeira brasileira em suas manifestações de rua. “A nossa bandeira jamais será vermelha”, diz um de seus famosos mantras.

No entanto, esse “nacionalismo” bolsonarista possui traços de submissão. Evoca o velho complexo de vira-latas.

É favorável a entrega das riquezas nacionais para os grandes capitalistas estrangeiros, bate continência para a bandeira estadunidense e, ao contrário de outros fascismos, considera o brasileiro (somente o pobre, e não a elite) como um povo inferior.

Ódio contra as minorias

Este é um terreno onde os bolsonaristas se sentem em casa. Odeiam homossexuais, negros, indígenas, mulheres e esquerdistas, entre outros.

Mas não basta odiar uma minoria, é precisa desumanizá-la. Mulheres são “fraquejadas”. Negros são mensuradas em “arrobas”. Indígenas estão em um estágio sub-humano.

Principalmente para o núcleo evangélico do bolsonarismo, homossexuais são “doentes” passíveis de tratamento (daí o fato de acreditarem no “tratamento” conhecido como “cura gay”).

Já os indivíduos com posicionamentos políticos à esquerda são rotulados como “esquerdopatas”, ou seja, são considerados como portadores de algum tipo de patologia.

Machismo violento

A exaltação da masculinidade é um pilar fundamental do bolsonarismo.

Depois da eleição do “mito”, o eleitor bolsonarista se sentiu muito mais à vontade para espancar a sua mulher.

Não por acaso, a violência doméstica é uma questão bastante citada pelo próprio Bolsonaro em seus pronunciamentos.

Tudo isso sem falar nas várias metáforas de cunho sexual ditas pelo atual presidente.

Exaltação do líder

Como já dito, a infalibilidade do “mito” é o dogma fundamental do bolsonarismo.

A hashtag “Bolsonaro tem razão” é uma das mais citadas pelos seus fanáticos seguidores nas redes sociais.

Basta Bolsonaro tocar o berrante que o gado prontamente atende: vai às ruas pedir ditadura militar, tece comentários raivosos no Facebook e/ou compartilha fake news no WhatsApp.

Obsessão por teorias conspiratórias

A lista bolsonarista de teorias da conspiração é vasta: “Terra Plana”, “globalismo”, “movimento anti-vacina”, “nazismo de esquerda”, “marxismo cultural” e, mais recentemente, o “vírus chinês”, criado em laboratório para derrubar o “mito”.

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Ainda de acordo com Eco, movimentos com características de ur-fascismo execram os artistas, abominam os intelectuais e odeiam os professores.

Para eles, as universidades são um ninho de comunistas. “Pensar é uma forma de castração. Por isso a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas”, ressalta o escritor italiano.

O Congresso, onde se questiona o governo, também é visto como ameaça permanente.

Afinal, somente o líder (ou, no caso brasileiro, o “mito”), é capaz de interpretar a vontade popular.

Novamente, não é difícil encontrar características bolsonaristas naquilo que Umberto Eco caracteriza como “fascismo eterno”.

O “mito” e seus fanáticos seguidores odeiam artistas e profissionais da cultura (aproveitadores da Lei Rouanet, mas agora “a mamata acabou”).

Professores e intelectuais são “doutrinadores comunistas” que distribuem “kit gays” e ensinam “ideologia de gênero” em escolas e universidades (ambientes de balbúrdia).

A “ameaça permanente do congresso” está no sentimento antipolítica e nas recentes manifestações bolsonaristas favoráveis ao fechamento da Câmara dos Deputados. Rodrigo Maia “conspira” contra o “mito”.

Enfim, não faltam argumentos para identificar o bolsonarismo como um movimento essencialmente fascista.

Diante dessa realidade, a “direita tradicional” (conhecida atualmente como “direita científica”) tem produzido inúmeros discursos criticando as posturas de Bolsonaro e seus seguidores.

Querem nos fazer esquecer que foram eles mesmos quem reabriram as portas do fascismo e elegeram o “mito”.

Afinal de contas, o mais importante era tirar o PT.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros. .
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