Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Articulista do Observatório da Imprensa. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

A política bumerangue da esquerda

Quanto mais os aparelhos repressivos tiverem poder; maior a perseguição a negros, pobres e esquerdistas.


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Uma das principais características da atual esquerda brasileira (ou pelo menos de grande parcela) é a sua desorientação política.

Não por acaso, apenas nos quatro últimos anos, a direita (que estava praticamente inviável eleitoralmente) conseguiu dar um golpe de Estado, extingui os (poucos) avanços sociais realizados pelos governos petistas e, de quebra, elegeu um governo federal que é uma junção de neoliberalismo, fundamentalismo religioso e fascismo.

Boa parte dos fracassos de nossa esquerda está em sua “política bumerangue”, que é marcada pela união à direita no apoio a medidas que, em última instância, prejudicam essencialmente a própria esquerda.

Em outros termos, podemos dizer que, assim como o funcionamento de um bumerangue, a esquerda apoia o lançamento de uma política que, posteriormente, se volta contra si mesma.

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Um exemplo recente dessa “política bumerangue” foi protagonizado por esquerdistas que pediram a prisão do ex-secretário de Cultura, Roberto Alvim, por seu pronunciamento inspirado em palavras do ministro da Propaganda da Alemanha Nazista, Joseph Goebbels.

Isso significa evocar a tão malfadada e anacrônica “censura” (um fantasma que remete à Ditadura Militar).

Lembrando um pensamento bastante citado por Voltaire, a liberdade de expressão, condição sine qua non para qualquer nação minimamente democrática, deve ser válida e defendida, principalmente, em relação a colocações às quais não concordamos.

É fato que as ideias nazistas são definitivamente abomináveis e as declarações de Roberto Alvim foram bastante infelizes.

Porém, pedir pelo encarceramento do ex-secretário de Cultura, por causa de seu discurso extremista, significa uma perigosa margem para uma delirante e crescente aspiração da direita: a criminalização do comunismo.

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Baseada em uma suposta semelhança entre nazismo e comunismo (a partir da ideia equivocada de quem ambos os sistemas foram responsáveis pelas mortes de milhões de seres humanos), setores conservadores da sociedade brasileira buscam equiparar a divulgação dos ideais comunistas à propagação da doutrina nazista.

Ou seja, se é crime no Brasil fazer apologia ao nazismo o mesmo valeria para o comunismo.

Suponhamos que Roberto Alvim fosse preso.

A direita brasileira teria um álibi perfeito em sua empreitada para enquadrar todos aqueles que criticam o sistema capitalista e pleiteiam por uma realidade mais justa, sob a alegação de que estariam “fazendo apologia ao comunismo”.

E não adianta argumentar que nunca houve um país verdadeiramente comunista.

Para as mentes paranoicas e oligofrênicas, o comunismo está por toda parte: nas escolas, nas igrejas católicas, no campo e na mídia.

Tampouco adiantaria apontar que nazismo e comunismo apresentam ideias totalmente opostos; pois, enquanto o primeiro apregoa o extermínio de minorias, o segundo defende uma sociedade igualitária.

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Desse modo, Alvim e outros poucos fascistóides seriam espécies de “bois de piranha” (assim como foi recentemente Eduardo Cunha) para o ataque à esquerda.

E assim pessoas seriam consideradas “fora da lei” simplesmente por aderir à uma determinada linha de pensamento.

Pelo andar da carruagem, no Brasil atual, Cazuza correria um sério risco de ter a sua liberdade cerceada simplesmente pelo fato de “querer uma ideologia para viver”.

Sempre é importante frisar: quanto mais os aparelhos repressivos tiverem poder; maior a perseguição a negros, pobres e esquerdistas.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Articulista do Observatório da Imprensa. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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