Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Articulista do Observatório da Imprensa. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Alter ego digital

Se Narciso, famoso personagem da mitologia grega, vivesse nos dias de hoje, certamente não precisaria morrer afogado, contemplando a si mesmo, bastaria atualizar diariamente os seus vários perfis nas redes sociais.


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Nos anos 60, segundo o filósofo Guy Debord, teve início a chamada “sociedade do espetáculo”, quando as relações humanas, cada vez mais superficiais, passaram a ser intermediadas por imagens e todos os símbolos que elas carregam.

A “aparência” tornou-se mais importante do que a “essência” e o “ser” foi substituído pelo “ter” (ou melhor, pelo “parecer ter”).

Décadas depois, surgia a “era das celebridades”, marcada pelas perseguições de paparazzis às pessoas famosos, em busca dos melhores flashes.

Por sua vez, o público queria saber todos os passos das celebridades: onde passam as férias? quais festas frequentam? com quem se relacionam?

No entanto, tudo mudou com as redes sociais.

Agora, cada indivíduo é potencialmente um “paparazzo de si mesmo”, capaz de criar um personagem sobre o próprio eu, como se fosse constantemente filmado, vivesse em um reality-show ou estivesse nas páginas de uma revista, fazendo de sua vida um espetáculo orientado para o olhar alheio.

Consequentemente, as impressões que temos sobre nós mesmos e os outros, passam, necessariamente, pela imagem construída na internet.

Redes sociais como Facebook e Instagram se constituíram em uma espécie de “alter ego digital”.

Praticamente não há mais limites entre real e virtual.

Diga-me o que postas, te direi quem és.

De acordo com a antropóloga Paula Sibilia, para a sociabilidade contemporânea, exibir-se na internet não é apenas algo que se “pode fazer”, é também “desejável”, para que assim um sujeito passe a “existir” e ser valorizado.

Não por acaso, há uma forte tendência entre adolescentes em sofrer de “selfie-estima”, o que significa relacionar a autoconfiança corporal com a quantidade de “curtidas” que se recebe em uma foto postada nas redes sociais.

Nos Estados Unidos, 55% das cirurgias faciais são realizadas em pacientes que querem melhorar a aparência em selfies.

Já um estudo do Pew Research Center constatou que aplicativos de relacionamentos têm sido responsáveis pelo aumento de vendas de cremes para pele masculina e produtos para cabelo e barba, pois muitos homens desejam parecer mais atraentes nas fotos de seus perfis.

Curiosamente, vendas de perfumes não se alteraram. Odor não se percebe por imagens.

Diante dessa realidade, se Narciso, famoso personagem da mitologia grega, vivesse nos dias de hoje, certamente não precisaria morrer afogado, contemplando a si mesmo, bastaria atualizar diariamente os seus vários perfis nas redes sociais.

Mas, é claro, com muitas “curtidas”.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Articulista do Observatório da Imprensa. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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