Francisco Fernandes Ladeira

Mestre e doutorando em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros.

Breve retrospectiva da segunda década do século XXI

Este artigo aponta alguns dos acontecimentos que marcaram a década compreendida entre 2011 e 2020


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Daqui a poucos dias encerraremos mais uma década: a segunda do século XXI, compreendida entre os anos 2011 e 2020.

No Brasil, o decênio em questão começou com um país otimista, marcado pela posse da primeira mulher eleita para a presidência da República e por grande ascensão social (sobretudo na erroneamente designada “nova classe média”).

No entanto, terminamos 2020 com um governo de extrema direita, responsável por aplicar uma política econômica neoliberal de vários ataques à classe trabalhadora, além de colocar em xeque áreas como ciência, artes, cultura, educação e meio-ambiente.

No cenário geopolítico global, passamos de um influente membro dos BRICS, com uma política externa relativamente independente, que privilegiava as alianças sul-sul, a um anão diplomático, irrelevante, completamente submisso aos ditames de Washington e motivo de chacota internacional.

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Em nosso subcontinente, a década começou com a maioria das nações sendo governada por presidentes de esquerda (Evo Morales, Hugo Chávez e Rafael Correa, entre outros) e terminou com uma guinada à direita (por meio de nomes como Luis Lacalle Pou, Mario Abdo Benítez e Jair Bolsonaro).

No mundo muçulmano, 2011 foi marcado pela presença das massas nas ruas, no complexo movimento que ficou conhecido como “Primavera Árabe”; e 2020 registrou a ameaça de uma guerra entre Estados Unidos e Irã após um ataque aéreo do exército ianque matar o general Qasem Soleimani, chefe da Guarda Revolucionária da nação persa.

Para europeus e estadunidenses, o decênio em questão será lembrado pela crise do processo de globalização e seus desdobramentos, como a chegada de um grande número de migrantes de nações pobres e a ascensão de políticos de extrema-direita como Donald Trump, Boris Johnson, Viktor Orban, Marine Le Pen, Matteo Savini, Mateusz Morawiecki e Sebastian Kurz.

Não obstante, neonazistas estiveram presentes no parlamento alemão, neofascistas no legislativo italiano, o Brexit (que marcou a saída do Reino Unido da União Europeia) foi alimentado pela xenofobia, o nacionalismo branco assolou a Escandinávia e regimes autoritários tomaram forma no Leste Europeu.

Nas ruas e na internet cresceram o ódio e a belicosidade racistas, anti-islâmicas e antissemitas. Infelizmente, o fascismo saiu do armário.

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Já no tocante à hegemonia no cenário geopolítico global, se nos anos posteriores à Guerra Fria, os Estados Unidos praticamente “reinaram” absolutos no planeta; na segunda década do século XXI, mesmo continuando a ser a grande potência imperialista, os estadunidenses tiveram as sombras de China, sob o aspecto econômico, e Rússia, no âmbito militar.

Aliás, o apoio russo foi fundamental para que Síria e Venezuela não se tornassem membros do grupo dos países invadidos e destruídos por Washington, como foram Iraque e Afeganistão. O segundo decênio do presente século também foi marcado pela consolidação da internet como principal meio de comunicação utilizado pela população mundial (sobretudo os mais jovens), interligando povos e culturas, em múltiplas atividades.

De acordo com a União Internacional de Telecomunicações (UIT), agência da ONU especializada em tecnologias de informação e comunicação, em 2018 cerca de 4 bilhões de pessoas acessavam constantemente o espaço virtual em todo o mundo (o que equivalia, na época, a 51% da população planetária).

Finalizando a década (sem chave de ouro), em 2020, o planeta foi assolado pela terrível pandemia do coronavírus – “a maior crise contemporânea da humanidade” –, cujo epicentro remete à província chinesa de Wuhan.

Além dos milhões de enfermos e centenas de milhares de óbitos, a pandemia também provocou cancelamentos de eventos públicos e privados, suspensões de aulas presenciais, proibições de reuniões, enxurradas de fake news, mudanças de hábitos, esvaziamentos de ruas, consideráveis quedas na economia global e adiamentos de torneios esportivos (inclusive da Olímpiada de Tóquio, programada para o verão de 2021).


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre e doutorando em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros. .
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