Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros.

Desorientação política da esquerda brasileira

O grande problema da esquerda brasileira é, assim como a “direita liberal”, pensar como classe média; ou seja, conceber o mundo por meio de análises moralistas, maniqueístas e precipitadas


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É fato que a esquerda brasileira (ou pelo menos grande parte dela) está desorientada politicamente há anos.

Adotaram o falacioso discurso anticorrupção da direita, endossaram a campanha conservadora “Não vai ter Copa”, apoiaram o golpe contra Dilma Rousseff, defenderam as arbitrariedades da Lava-Jato e abandonaram a luta de classes em favor do chamado “identitarismo”, entre outras incoerências.

No entanto, nesses tempos difíceis de pandemia, as contradições de boa parte da (carente) esquerda brasileira têm se acentuado.

Qualquer indivíduo que minimamente se oponha às declarações e atitudes insanas do presidente Jair Bolsonaro se transforma, automaticamente, em “herói da esquerda” ou “herói do povo”.

Esses foram os casos de João Dória, Ronaldo Caiado, Wilson Witzel, Luiz Henrique Mandetta e, nos últimos dias, Alexandre de Moraes (só não elogiaram o fascista Sérgio Moro porque aí já seria demais, nem o Psol chegaria a tanto).

Os governadores citados e o ex-ministro da Saúde foram alçados ao status de “heróis do povo” simplesmente pelo fato de, pelo menos no plano discursivo/simbólico, apoiarem determinadas medidas de isolamento social.

Diferentemente de Bolsonaro, outros nomes da direita não vivem em uma realidade paralela terraplanista; sabendo do perigo existente, apoiaram o isolamento social como tentativa de diminuir o impacto inicial do coronavírus, não para resolver o problema da pandemia.

Com o mercado exigindo o fim da quarentena (afinal de contas o capital não pode parar) estes mesmos “heróis do povo” começaram a colocar em prática medidas para afrouxar o isolamento social, à revelia do crescimento alarmante do número de casos de Covid-19 no país.

Em nosso sistema econômico, a voz do mercado é mais importante do que a voz da ciência. Mas a esquerda brasileira não fica órfã de heróis por muito tempo.

A bola da vez é (o tucano) Alexandre de Moraes, que suspendeu a nomeação do chefe da Política Federal feita por Bolsonaro.

Trata-se da velha arbitrariedade do Judiciário interferindo no Executivo, o mesmo modus operandi utilizado contra o PT, fator fundamental para o golpe em Dilma, há quatro anos.

Mas a maniqueísta esquerda brasileira comemorou entusiasticamente mais esse “feito democrático” do STF.

Desse modo, setores da esquerda têm operado na mesma lógica binária dos bolsonaristas: para os fanáticos seguidores do “mito”, quem é (aparentemente) inimigo de Bolsonaro, é automaticamente “inimigo”; para a esquerda, quem é (também aparentemente) inimigo de Bolsonaro, é automaticamente “amigo”.

É importante lembrar que é possível ser contra o governo Bolsonaro sem se aliar à direita tradicional.

Em suma, o grande problema da esquerda brasileira é, assim como a “direita liberal”, pensar como classe média; ou seja, conceber o mundo por meio de análises moralistas, maniqueístas e precipitadas.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros. .
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