Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Articulista do Observatório da Imprensa. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Distopia

Peçamos licença a Thomas More e imaginemos uma organização social que caminhe no sentido oposto ao de sua utopia; ou seja, a “distopia”.


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Historicamente, o termo “distopia” está associado a um lugar ou estado imaginário em que se vive sob condições de extrema opressão, desespero ou privação.

Também podemos entender a “distopia” a partir de sua antítese: a “utopia”, que significa um lugar ou estado ideal, de completa felicidade e harmonia entre os indivíduos.

A palavra utopia ficou mundialmente famosa após o lançamento do livro homônimo, lançado por Thomas More, que narra a história de uma sociedade praticamente perfeita.

Peçamos licença a More e imaginemos uma organização social que caminhe no sentido oposto ao de sua utopia; ou seja, a “distopia”.

Nessa sociedade distópica, o mandatário, em vez de colocar em prática uma política de governo eficiente, que beneficie toda a população, prefere ficar atacando os seus adversários e combater uma suposta ameaça comunista.

O ministro da Educação não está preocupado em melhorar o sistema de ensino de seu país, sua atividade favorita é atacar os professores.

Ele também é famoso por seu grande desconhecimento em relação ao idioma pátrio.

Como não poderia deixar de ser, a sociedade distópica se preocupada com a educação sexual de seus jovens.

Para tanto, a principal recomendação, baseada em preceitos religiosos, é a abstinência de relações libidinosas.

Por falar em religião, os templos da religião oficial do Estado são subsidiados pelo governo: estão isentos de pagar tarifas de água e luz.

Na política ambiental, a sociedade distópica possui um direcionamento simples e eficaz.

Se alguma pesquisa científica apontar que aumentou o número de áreas desmatadas em uma determinada formação vegetal, a solução não é tomar medidas que visem à proteção ao meio ambiente, mas despedir quem divulgou tais dados e sugerir que a população evacue dia sim, dia não.

Aliás, o desprezo pelo conhecimento científico é uma das marcas de distopia.

A Terra é plana. A teoria da evolução foi substituída pelo criacionismo. E, para estar bem informado sobre os principais acontecimentos, basta entrar em algum grupo de WhatsApp confiável.

Nessa mesma linha, a história é reescrita, sem “viés ideológico”. Distopia não atravessou uma ditadura militar.

O nazismo é de esquerda. E escravidão de negros não existiu.

Muitos habitantes da sociedade distópica vestiram as cores nacionais e foi às ruas pedir pela perda de direitos sociais e a entrega das riquezas nacionais para povos estrangeiros (considerados culturalmente superiores).

Outros morados de distopia prestam total devoção ao seu “mito” e têm justificativas prontas para todas as ações desse líder (por mais absurdas que elas possam parecer).

Ao contrário da sociedade utópica (praticamente inalcançável), o “êxito” de utopia dependente de um único fator: basta não torcer contra.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Articulista do Observatório da Imprensa. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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