Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros.

Guerras híbridas

A manutenção da (cada vez mais frágil) hegemonia estadunidense não depende necessariamente de investimentos militares ou da ocupação direta de nações como Afeganistão e Iraque, mas da capacidade de Washington em desestabilizar e derrubar determinados governos por meio de guerras híbridas.


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No atual cenário geopolítico global, a maioria das investidas dos Estados Unidos contra outras nações não são mais realizadas por intervenções militares diretas, mas a partir de “guerras indiretas”, como ataques biológicos, propagandas ideológicas, atuações de ONGs, sanções econômicas, bloqueios de alimentos e, principalmente, pelas chamadas “guerras híbridas”.

Há mais de dois milênios, na China antiga, o estrategista militar Sun Tzu já apontava que a guerra indireta é uma das formas mais eficientes de combater um inimigo, pois permite derrotar o adversário sem enfrentá-lo diretamente, economizando assim recursos que, certamente, seriam gastos em um confronto direto.

No caso dos Estados Unidos, podemos dizer que o país possui um grande histórico de envolvimentos em guerras indiretas, como o fomento de movimentos guerrilheiros antijaponeses durante a Segunda Guerra Mundial; treinamento de paramilitares tibetanos para lutar contra o governo chinês; apoio a insurreições anticomunistas violentas na Angola, Etiópia, Afeganistão e Nicarágua e a criação da Operação Mangosta, que apresentava a proposta de ataques biológicos para provocar o fracasso das colheitas de alimentos em Cuba.

Tudo isso sem contar os patrocínios aos vários golpes militares na América Latina no contexto da Guerra Fria.

Porém, com os recentes avanços tecnológicos (sobretudo dos meios de comunicação e transporte) novas possibilidades de intervenções indiretas surgiram, com destaque para a anteriormente mencionada guerra híbrida.

Além do mais, conforme destaca o jornalista e analista político Andrew Korybko, “nos dias de hoje, as armas de destruição em massa e um mundo multipolar impõem limites ao confronto direto entre grandes potências”.

Apesar de os Estados Unidos ainda deterem as Formas Armadas convencionais mais poderosas do mundo, a paridade nuclear que compartilham com a Rússia lembra constantemente que a unipolaridade tem seus limites.

Ainda conforme Korybko, “o sistema internacional vem se transformando de tal modo que os custos políticos e físicos para bancar uma guerra convencional contra certos países estão se tornando grande fardo para os tomadores de decisão, [o que faz] a opção militar menos atrativa”.

Desse modo, a guerra indireta tem ganhado destaque no planejamento estratégico estadunidense, sendo que sua aplicação pode assumir uma variedade de formas, com destaque para a guerra híbrida.

Para Miguel Enrique Stédile, “a guerra híbrida é a combinação entre revoluções coloridas e guerras não convencionais. Neste novo modelo de guerra, as revoluções coloridas – largamente planejadas anteriormente e utilizando ferramentas de propaganda e estudos psicológicos combinados com o uso de redes sociais – consistem em desestabilizar governos por meio de manifestações de massa em nome de reinvindicações abstratas como democracia, liberdade, etc. [...] Se ela [revolução colorida] não for suficiente para combater e substituir o governo, avança-se para o estágio da guerra não convencional, aquelas combatidas por forças não regulares, sejam guerrilhas, milícias ou insurgências”.

Nas revoluções coloridas, o modus operandi estadunidense consiste em apoiar tacitamente determinadas convocações (que podem ser via mídia tradicional ou redes sociais) para que a população se manifeste “espontaneamente” contra governos considerados hostis aos interesses de Washington (como foram os casos da Primavera Árabe e as Jornadas de Junho no Brasil).

Oficialmente, uma revolução colorida tem início a partir de um “acontecimento” que deve ser, concomitantemente, controverso e polarizador.

Esse “acontecimento”, incessantemente reproduzido pela mídia e nas redes sociais, levará multidões às ruas. Trata-se do “golpe branco”.

No entanto, se a revolução colorida fracassar – isto é, se o governo não for derrubado – ocorre a transição para a guerra não-convencional.

Em outros termos, os “protestos pacíficos” dão lugar à violência explícita.

Nesse sentido, entram em cena as ações de determinados grupos paramilitares (como os “rebeldes” na Síria e os movimentos de extrema-direita na Ucrânia) que passam a atacar alvos dos governos de seus países. Trata-se do “golpe rígido”.

Sob o aspecto tecnológico, nas revoluções coloridas e na guerra não-convencional, Facebook, Twitter, Google Maps e YouTube são partes integrantes do “arsenal” que os guerreiros híbridos empunham.

Facebook e Twitter são utilizados para reunir e fazer propaganda do movimento da revolução colorida.

Nessas redes sociais são recrutados apoiadores e/ou criados grupos fechados nos quais “ativistas” contra o poder vigente podem se encontrar e discutir virtualmente suas estratégias.

Pelo Google Maps é possível identificar locais mais emblemáticos para protestos e planejar caminhos para eventuais fugas de manifestantes.

Os “ativistas” também podem filmar seus protestos por aparelhos celulares e publicar vídeos favoráveis às suas mobilizações no YouTube.

Conforme é de se esperar, os governos dos países alvos tendem a reagir (muitas vezes de forma violenta) tanto em relação à revolução colorida quanto à guerra não-convencional.

Aí reside o argumento perfeito para que os Estados Unidos, enfim, possam intervir militarmente em outras nações: o “pretexto” de defender a população civil de “governos autoritários”.

Sob o aspecto geográfico, quanto mais as operações de desestabilizações provocadas pelos Estados Unidos se aproximam de seus principais inimigos geopolíticos (China, Rússia e Irã), menor o risco de guerra direta (caso da Líbia) e maiores as possibilidades de que meios indiretos – revoluções coloridas e guerra não-convencional – sejam aplicados (exemplos anteriormente citados de Ucrânia e Síria).

A atual situação dos Estados Unidos não permite que entrem em eventuais confrontos diretos com potências emergentes.

Também é interessante para a política externa da Casa Branca provocador convulsões sociais em nações limítrofes à China, Irã e Rússia para que essas instabilidades socias reverberem, de alguma maneira, nos “inimigos geopolíticos”.

Assim, a manutenção da (cada vez mais frágil) hegemonia estadunidense não depende necessariamente de investimentos militares ou da ocupação direta de nações como Afeganistão e Iraque, mas da capacidade de Washington em desestabilizar e derrubar determinados governos por meio de guerras híbridas.

Referência

KORYBKO, Andrew. Guerras híbridas: das revoluções coloridas aos golpes. São Paulo, Expressão Popular, 2018.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros. .
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