Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros.

Negros nos EUA e no Brasil

Enquanto o Brasil não se libertar de sua instituição fundadora (a escravidão), no que diz respeito à convivência civilizada entre seus habitantes, continuaremos a ser uma das sociedades mais atrasadas do planeta


vidas negras importam.jpg

Nos últimos dias, estadunidenses e brasileiros assistiram em seus países cenas lamentáveis de indivíduos negros sendo covardemente asfixiados por policiais brancos.

No entanto, as reações a estes acontecimentos foram diferentes nos EUA e no Brasil.

Enquanto no país da América do Norte, houve uma grande onda de protestos por causa da morte de George Floyd; por aqui, imagens de agressões policiais a negros geraram pouco repúdio por parte da população em geral.

Quais fatores poderiam explicar essas reações?

Análises imediatistas e bovaristas diriam que os estadunidenses são mais engajados do que os passivos brasileiros. Nada mais fora da realidade.

Quando setores oprimidos se levantam no Brasil, logo são vítimas de violência física (aparato repressivo) e simbólica (condenação da chamada “opinião pública”).

A questão é muito mais complexa: está relacionada, sobretudo, à situação do elemento negro nas sociedades brasileira e estadunidense.

Evidentemente, em ambas existe racismo: velado (em nosso caso) e explícito (no caso deles).

Porém, há um grande diferencial. Nos EUA, por mais que sejam alvo de preconceito, os negros têm o mínimo acesso a dignidade.

Já no Brasil, como bem coloca o sociólogo Jessé Souza, os negros (descendentes de pessoas que foram escravizadas), pobres em sua esmagadora maioria, ainda não conquistaram a mínima cidadania; na prática, são considerados “sub-cidadãos”, fator que, infelizmente, os coloca em um estágio abaixo da própria noção de humanidade.

Se essas pessoas, no convívio social, ainda são consideradas “subumanas”, passa a ser corriqueiro que seu sofrimento não desperte a alteridade de outras classes sociais.

Isso “permite”, por exemplo, que o passeio com o cão seja mais importante do que os cuidados com o filho da empregada doméstica, a redução da mulata ao papel de objeto sexual e o genocídio de jovens nas periferias.

Por isso, enquanto nos EUA ainda há certa indignação com a morte de negros; aqui no Brasil presenciamos essa assustadora indiferença.

Também é importante perguntar: como esperar uma “consciência étnica” da grande maioria dos negros brasileiros, o que requer reflexões bastante aprofundadas sobre a realidade, se essa população tem que se preocupar, antes de tudo, com sua própria sobrevivência diária?

Enfim, enquanto o Brasil não se libertar de sua instituição fundadora (a escravidão), no que diz respeito à convivência civilizada entre seus habitantes, continuaremos a ser uma das sociedades mais atrasadas do planeta.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// //Francisco Fernandes Ladeira