Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros.

O falso normal

De maneira surreal, temos um caso inédito de declínio de uma pandemia, não pelo surgimento de uma vacina ou de tratamento eficaz, mas por “decretos das autoridades governamentais” e pelos discursos midiáticos.


novo normal.jpeg

Se um estrangeiro chegasse hoje ao Brasil, e procurasse por informações sobre a Covid-19 nos noticiários da grande mídia, muito provavelmente chegaria a conclusão de que, em terras tupiniquins, a pandemia está relativamente controlada, assim como em nações asiáticas e europeias, que atravessam o estágio conhecido como “novo normal”.

No entanto, a realidade nos mostra um cenário bastante diferente: um platô que parece não ter fim, com médias diárias de 1000 óbitos. Nesse sentido, é importante tentarmos entender porque os grandes grupos de comunicação estão forjando este “novo normal”.

Quando foram registrados os primeiros casos de Covid-19 no Brasil, no início do ano, pelas próprias características de um “vírus importado”, tratava-se, basicamente, de uma enfermidade que acometia indivíduos das classes média e alta. Em bom português: “era doença de rico”.

Na época, devido a inércia das autoridades públicas em lidar com o coronavírus, a solução (mais fácil) encontrada para evitar que elite e classe média fossem contaminadas foi o isolamento social. Somente as atividades consideradas “essenciais” continuaram normalmente. Surgia a (já) famosa hashtag “fique em casa”.

Porém, a partir do momento em que o coronavírus deixou de ser “doença de rico”, começou a descer a pirâmide social (virando “doença de pobre”) e, como bem apontou Emir Sader, os grandes capitalistas “descobriram” que o sistema econômico vigente não sobrevive sem o consumo de supérfluos (os chamados "serviços não-essenciais”), o discurso da #fiqueemcasa tornou-se insuficiente.

Consequentemente, por um desses paradoxos que só a ganância financeira explica, enquanto cresciam vertiginosamente os casos de Covid-19 em todo o país, era promovida a abertura gradual da economia. Na mídia, era preciso incentivar as pessoas a saírem de casa. Entrava em cena um novo discurso: a #usemáscara.

Porém, parafraseando Albert Einstein, “duas coisas são infinitas: o universo e a vontade de lucro capitalista”. Não basta abertura gradual, é preciso que todas as atividades econômicas, sem exceção, estejam a pleno valor.

Não há testagens em massa, distanciamento social nas fábricas é uma quimera, trabalhadores se amontoam no transporte público e, conforme já dito, os números de contaminados e mortos por Covid-19 só aumentam.

Mas, na mídia, o “novo normal” já chegou: a pandemia aparece cada vez menos nos noticiários, o Campeonato Brasileiro não pode parar e “especialistas” traçam as melhores estratégias para a volta às aulas presenciais (os empresários da educação agradecem). “É preciso saber conviver com o vírus”, diz o mantra repetido país afora.

Se tivesse uma hashtag para definir o momento, seria a #abretudo. Caso o coronavírus tivesse sentimentos, certamente ele estaria muito feliz no Brasil.

E assim, de maneira surreal, temos um caso inédito de declínio de uma pandemia, não pelo surgimento de uma vacina ou de tratamento eficaz, mas por “decretos das autoridades governamentais” e pelos discursos midiáticos.

Lembrando um clássico da banda Queen, “The show must go on” (o show tem que continuar); ou melhor, o capital tem que continuar seu caminho. Nem que para isso seja necessário expor a população a um vírus altamente contagioso. Infelizmente, somos o país do “falso normal”.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros. .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Francisco Fernandes Ladeira