Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros.

O mito da liberdade na sociedade contemporânea

O homem contemporâneo, apesar de livre dos ditamos da comunidade, corre o sério risco de sucumbir à padronização da sociedade de massa.


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Uma das principais características das sociedades conhecidas como proto- industriais (feudal, indígena, africanas, hindus, entre outras) é o forte poder de coerção exercido pela comunidade sobre seus membros.

Nesses arranjos sociais não há distinção entre os espaços público e privado.

O indivíduo está, amiúde, sob o olhar atento de toda a sociedade, que pode, de acordo com os valores e costumes vigentes, aprovar ou desaprovar determinada conduta.

Para alguns pesquisadores das ciências humanas, somente com o advento da sociedade burguesa podemos falar de uma “vida privada” propriamente dita.

O ser humano, livre dos grilhões sociais, estaria pronto para exercer sua completa individualidade.

A expressão máxima desse novo período é o grande centro urbano, onde os vizinhos mal se cumprimentam e os comportamentos que fogem do status quo são mais tolerados.

No entanto, é bastante complexo falar em individualidade quando vivemos numa época cada vez mais dominada pela indústria cultural, responsável por tentar igualar padrões de comportamento e consumo de bilhões de seres humanos das mais variadas regiões do planeta.

O mesmo modelo de desenvolvimento que proporcionou ao indivíduo uma relativa autonomia em relação à comunidade, trouxe também novas formas de controlar a vida alheia.

Também é complicado pensar em privacidade quando pessoas têm os seus passos monitorados por chips e a frase “você está sendo filmado” está em toda parte.

Consequentemente, em nome de uma suposta segurança, abdicamos de nossa liberdade e nos deixamos ser controlados o tempo todo.

Por outro lado, o voyeurismo é uma das marcas da pós-modernidade.

Não é por acaso que os programas de fofocas e os reality-shows fazem tanto sucesso atualmente.

Já nas redes sociais, milhões de usuários expõem todos os acontecimentos de seus cotidianos.

O homem contemporâneo, apesar de livre dos ditamos da comunidade, corre o sério risco de sucumbir à padronização da sociedade de massa.

A diferença é que nas organizações sociais proto-industriais os mecanismos de controle eram locais, e na sociedade contemporânea esses poderes controladores atuam em âmbito global.

Enfim, nunca fomos tão vigiados.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros. .
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