Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros.

Os discursos da grande mídia sobre a volta às aulas presenciais

Como diz o mantra do momento: “é só não falar no vírus, que ele desaparece”.


2020-03-13t145129z_1265676104_rc22jf9wi6m7_rtrmadp_3_health-coronavirus-brazil.jpg

Nos últimos dias, as discussões sobre o retorno às aulas presenciais têm ganhado bastante destaque na imprensa brasileira. No entanto, em vez de proporcionar oportunidades para que os diferentes argumentos sobre essa complexa temática possam se contrapor, o que temos visto e lido nos principais noticiários é uma opinião unânime: apesar do coronavírus, as aulas presenciais devem retornar em todo o país. De preferência, o mais rápido possível.

Entre os argumentos para tal posicionamento estão a queda do número de contaminados e óbitos pela Covid-19, a premissa de que crianças e jovens não fazem parte do grupo de risco, o ensino remoto acentua as diferenças de acesso à educação e o afastamento das escolas por um longo período estaria afetando a saúde mental de crianças e jovens.

Pois bem, será que os articulistas da grande mídia – que historicamente defendem o sucateamento do ensino público em benefício dos grandes empresários da Educação – resolveram, de uma hora para outra, se preocupar com o bom andamento da Educação brasileira?

Evidentemente, não. Como diz o ditado popular: de boas intenções, um conhecido lugar da mitologia cristã está cheio. Não é preciso ser da área de Educação para saber que, o uso adequado de máscara, passar álcool em gel constantemente nas mãos e, principalmente, manter o chamado isolamento social, são questões difíceis de se estabelecer em instituições escolares. Lembrando um famoso comentário nas redes sociais: “a escola não controla nem piolho, vai controlar o coronavírus?”

Já especialistas em Saúde Pública apontam que crianças e jovens, mesmo teoricamente não fazendo parte do grupo de risco à Covid-19, podem transmitir o coronavírus para país, avós e outros familiares.

Mas, por que a mídia defende ferrenhamente o retorno às aulas presenciais, mesmo que o mínimo bom senso diga que as aulas presenciais só seriam possíveis com a pandemia controlada ou com a vacinação em massa da população (realidades que, infelizmente, estão bastante distantes de nós).

Para responder a essa pergunta, é preciso desvelar o que está por trás dos conteúdos dos noticiários; o que significa entender “a que interesses” a grande mídia atende e “a quais indivíduos” seus discursos se destinam.

A imprensa hegemônica atende, essencialmente, aos interesses do mercado: ou seja, dos grandes capitalistas. Com a economia praticamente aberta, é necessário que o grande capital atinja aquela que é a última fronteira da quarentena: as instituições escolares.

Além dos lucros dos empresários da Educação – e seus negócios pedagógicos caça-níqueis – o setor educacional também movimenta outros importantes setores da economia, ligados ao fornecimento de material escolar, alimentação, transporte e confecção de uniformes, entre outros.

Portanto, o capital em crise, e sedento por lucro, não pode abrir mão de um lucrativo negócio, somente pelo fato de que “os professores preferem ficar em casa em vez de voltar a trabalhar” (sim, este é o pensamento predominante sobre os profissionais do magistério nos estratos mais retrógrados da população).

Como os discursos midiáticos se dirigem majoritariamente à classe média, não é por acaso que, nos últimos dias, temos observado constantemente nos noticiários as presenças de “especialistas” em Educação e Saúde “explicando” para este público o quão seguro e necessário é o retorno às aulas presenciais.

E assim, no Brasil, o “novo normal”, pós-pandemia, já chegou. Não que o coronavírus esteja erradicado por aqui, ou ao menos controlado. Infelizmente, muito distante disso. A pandemia acabou porque assim o querem autoridades públicas, grandes empresários, muitos donos de escolas privadas e os “cidadãos de bem”. Como diz o mantra do momento: “é só não falar no vírus, que ele desaparece”.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Francisco Fernandes Ladeira