Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Articulista do Observatório da Imprensa. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Pandemia não elimina divisão da sociedade

Se os bolsonaristas já representavam um perigo para a frágil democracia brasileira; agora, ao incentivarem aglomerações em um contexto de pandemia, também se transformaram em um risco para a saúde pública.


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Seria muita ingenuidade acreditar que, com a temível pandemia do coronavírus, os brasileiros, separados pela chamada polarização ideológica, enfim se uniriam para combater um inimigo em comum.

Nesse sentido, mesmo com a grave crise de saúde pública, podemos afirmar que dois fatores básicos explicam a impossibilidade de coesão em nossa sociedade.

Tratam-se dos discursos inflamados do presidente da República Jair Bolsonaro e o próprio funcionamento do modo de produção capitalista.

Desde o início de seu mandato presidencial, Bolsonaro se sustenta na divisão da sociedade, pois governos de características fascistas têm na constante criação de inimigos externos um de seus principais pilares.

Até meados do mês de março, com as divulgações dos primeiros casos de Covid-19 no Brasil, havia um relativo consenso entre a população sobre a quarentena horizontal ser a melhor alternativa para evitar a rápida propagação do coronavírus.

Porém, esse relativo consenso mudou subitamente após um pronunciado de Bolsonaro em cadeia nacional incentivar a população brasileira a romper o isolamento social.

Esta fala foi o suficiente para o exército bolsonarista em todo país reivindicar o fim da quarentena, sob o argumento de “proteger a economia”.

“Isolem os idosos, voltemos ao trabalho!”, foi o grito de guerra bolsonarista.

Já em relação ao modo de produção vigente, segundo fator que impede a coesão social no Brasil, o velho Marx dizia: no sistema capitalista não há conciliação entre os interesses de patrões e empregados.

A economia de mercado é um jogo de soma zero.

Portanto, não há medidas que sejam simultaneamente benéficas para capitalistas e proletariado.

“O que são milhares de mortos frente aos nossos prejuízos financeiros?”, pensaram muitos empresários Brasil afora.

As recentes carreatas pela reabertura total de todos os setores da economia, desrespeitando assim a quarentena sugerida pelas principais autoridades sanitárias, comprovam que os patrões não estão preocupados com a saúde ou a subsistência do trabalhador, mas em garantir seus lucros, obtidos a partir da exploração de mão de obra alheia.

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No entanto, foram nas redes sociais que a milícia digital bolsonarista mais se mobilizou.

Fechados com o "mito", unificaram seus discursos.

Dispostos a defender o fim do isolamento social a todo custo, atacaram todos aqueles que consideram contrários à sua posição.

Os bodes-expiatórios da vez foram a Rede Globo, o governador de São Paulo João Dória e, como não poderia deixar de ser, os petistas (generalização bolsonarista para quem pensa de forma diferente).

As críticas à Rede Globo foram relacionadas às matérias da emissora que condenaram o comportamento de Jair Bolsonaro frente ao coronavírus.

Nessa lógica, não compactuar com um discurso que minimiza os efeitos nefastos da pandemia e que incentiva aglomerações seria simplesmente “torcer contra o Brasil”.

Aliás, à exceção de quem está diretamente ligado a extrema-direita – como Ratinho do SBT e Tomé Abduch da recém-criada CNN Brasil – nenhum nome da grande imprensa aprova as atitudes inconsequentes de Jair Bolsonaro.

Também é importante frisar que as mesmas pessoas que hoje levantam a hashtag “GloboLixo” apoiaram cegamente a emissora durante a campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff.

Trata-se de uma indignação seletiva. Maior hipocrisia política impossível.

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Se as críticas à Rede Globo se limitaram aos discursos raivosos, os ataques a João Dória foram mais sérios, chegando, inclusive, a acusações infundadas e ameaças de morte (conforme relatou o próprio governador paulista).

No Facebook e no WhatsApp, perfis conservadores compartilharam áudios, textos e vídeos fakes sobre um suposto decreto do governo de São Paulo para relacionar todos os óbitos no estado à Covid-19.

Segundo os bolsonaristas, esse “decreto” tem por objetivo gerar pânico entre a população, forçar a continuação da quarentena, desestabilizar a economia e, consequentemente, provocar a queda da popularidade de Jair Bolsonaro, abrindo caminho para a eleição de João Dória para a presidência da República daqui a dois anos e meio.

É fato que João Dória tem aspirações em chegar ao Planalto. A queda da popularidade de Bolsonaro seria um fator favorável a isso.

Entretanto, por mais que sejamos contrários a ideologia política de Dória, é fundamental denunciar as calúnias às quais ele tem sido vítima ultimamente.

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Conforme o de costume, os petistas também estão no grupo daqueles que, segundo o exército bolsonarista, são responsáveis por “torcer contra o Brasil”.

Para os seguidores do “mito”, à revelia das vidas em risco, somente os “petistas que não gostam de trabalhar” são contra o fim da quarentena. Simples assim.

Desse modo vai se configurando um bizarro cenário. Se os bolsonaristas já representavam um perigo para a frágil democracia brasileira; agora, ao incentivarem aglomerações em um contexto de pandemia, também se transformaram em um risco para a saúde pública.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Articulista do Observatório da Imprensa. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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