Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Articulista do Observatório da Imprensa. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Por que quem critica o comunismo não sabe o que é comunismo? E nem capitalismo...

Fazendo um paralelo com a psicanálise, a paranoia contra o comunismo é uma espécie de “mecanismo de defesa” do capitalismo, uma projeção para seus aspectos mais cruéis, que seus ideólogos insistem em esconder da maioria da população.


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No decorrer da história, poucas palavras foram tão demonizadas como foi o vocábulo “comunismo”.

Na Alemanha Nazista, o comunismo era um dos principais inimigos do regime. Supostas ameaças de implantação de sistemas comunistas foram utilizadas como pretexto para justificar os vários golpes de Estado que ocorreram na América Latina. Nos Estados Unidos, durante a Guerra Fria, o chamado “macartismo” promoveu uma cruzada moralista contra o comunismo.

No caso brasileiro, Getúlio Vargas forjou a existência de uma suposta conspiração para implantar o comunismo no Brasil (Plano Cohen) para impor a ditadura conhecida como Estado Novo. A prática de políticas consideradas pela direita brasileira como “comunistas” – como as chamadas Reformas de Base ou o programa Bolsa Família, por exemplo – foram questões presentes nas manifestações da classe média histérica que contribuíram para os golpes que depuseram os presidentes João Goulart e Dilma Rousseff.

Já a atual onda fascista global (que atinge inclusive ao Brasil) tem nos “comunistas” um de seus principais bodes expiatórios.

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No entanto, ironicamente, a grande maioria dos críticos ao comunismo sequer sabe o que esse sistema significa ou tampouco leu uma página de Marx ou de outros autores. Em geral, esses indivíduos se limitam a repetir discursos infundados, mencionar vídeos assistidos no Youtube ou citar frases de Margaret Thatcher, Winston Churchill e Ronald Reagan.

Frequentemente os termos “socialismo” e “comunismo” são equivocadamente utilizados como sinônimos.

Nesse sentido, a obra de Karl Marx é a principal base para se compreender esta questão.

De acordo com o pensamento marxiano, a história se desenvolve de forma linear, em diferentes etapas, movidas, sobretudo, pelas contradições originadas da organização do sistema de produção (luta de classes). Segundo Marx, “em um caráter amplo, os modos de produção asiático, antigo, feudal e burguês moderno podem ser considerados como épocas progressivas da formação econômica da sociedade”.

Cada fase do desenvolvimento da humanidade produz o germe de sua destruição. No sistema feudal essa função coube à burguesia. No sistema capitalista, a classe operária, explorada pelos patrões, deve se organizar e promover a revolução socialista, transformando os meios de produção em propriedades coletivas. Instaurado o regime socialista, caberia ao proletariado apoderar-se do aparelho estatal e eliminar as diferenças sociais originadas pelo sistema capitalista.

Corrigidas as distorções sociais, instituições como o Estado, o mercado e a propriedade privada deixariam de existir. Surgiria então a derradeira etapa do desenvolvimento da humanidade: o comunismo.

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Portanto, o comunismo seria a superação do próprio capitalismo, o que, por si só, já refuta aqueles que associam o comunismo a um tipo de sociedade que prega o retorno do ser humano ao seu estado de natureza, pré-civilizacional, negando assim qualquer tipo de avanço tecnológico.

Mas as distorções e falácias sobre o comunismo não param por aí.

Muitos de seus críticos dizem que comunismo é sinônimo de fome e miséria.

Nesse sentido, não é preciso a existência do comunismo ou qualquer outra forma de organização social. O próprio sistema capitalista já se encarrega de produzir milhões de famintos e miseráveis em todo o planeta (sobretudo em países periféricos).

Também há aqueles que repetem exaustivamente que o comunismo, assim como o nazismo, foi responsável pela morte de milhões de seres humanos.

Ora, se formos analisar as ideias de Marx expostas acima, facilmente chegaremos à conclusão de que jamais existiu uma nação comunista. Não dá para colocar na conta dos ideais comunistas o caráter autoritário do stalinismo, por exemplo.

Além do mais, se a questão é a matança de milhões de seres humanos, não há como deixar de mencionar a escravidão, as guerras por recursos naturais e a destruição de países pobres, entre outros acontecimentos que estão ligados, justamente, ao capitalismo.

Há também aqueles que dizem: “comunismo é coisa de preguiçoso, que não gosta de trabalhar”.

Como já diziam Marx e Engels, no capitalismo “quem trabalha não ganha, e quem ganha não trabalha”. Basta ir a um fábrica qualquer para ver quem realmente produz algo, o patrão ou o empregado? Portanto, quem não gosta de trabalhar é o capitalista.

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Outros críticos do comunismo temem o fato de esse sistema abolir a propriedade privada. No entanto, no próprio modo de produção capitalista, em países periféricos, é negado o acesso à propriedade particular para a imensa maioria da população. Tudo isso sem mencionar a chamada “acumulação primitiva de capitais” – responsável por despojar milhões de camponeses de suas terras.

Conforme lembra o sociólogo italiano Domenico de Masi, os moralistas (Damares Alves da vida) gostam de apontar que os comunistas querem destruir a família. Porém, através do trabalho de sol a sol e da miséria, o sistema capitalista lacerou todos os vínculos familiares do proletariado, transformando seus filhos em simples artigos de comércio ou instrumento de trabalho e prostituição.

Fazendo um paralelo com a psicanálise, a paranoia contra o comunismo é uma espécie de “mecanismo de defesa” do capitalismo, uma projeção para seus aspectos mais cruéis, que seus ideólogos insistem em esconder da maioria da população.

Lembrando o título deste texto, quem defende incondicionalmente o capitalismo (principalmente pobres e classe média), definitivamente não sabe o que é capitalismo.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Articulista do Observatório da Imprensa. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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