Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Articulista do Observatório da Imprensa. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

Sobre o carnaval

Não gostar de carnaval é um direito que deve ser respeitado. No entanto, estragar a festa alheia ou militar pelo fim do carnaval não são apenas atos egoístas, significa negar um dos únicos momentos de alegria ao (sofrido) povo brasileiro.


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Neste mês de fevereiro é praticamente impossível para qualquer cidadão brasileiro ficar indiferente ao carnaval.

Muitos de nossos compatriotas aproveitam intensamente os festejos carnavalescos nas ruas, clubes e sambódromos.

Mesmos aqueles que não gostam, acabam sendo afetados pelo carnaval, seja fugindo da folia, indo para retiros ou simplesmente aproveitando os dias de feriado em casa.

Poucos assuntos polarizam tanto nossa sociedade quanto o carnaval.

Argumentos pró e contra a festa invadem as redes sociais nesta época.

No entanto, é importante desfazer algumas falácias sobre o carnaval, principalmente aquelas reverberadas pelos setores conservadores.

Quem associa o carnaval à alienação popular desconhece a história brasileira. Só o fato de inverter a ordem social durante alguns dias já faria do carnaval um evento potencialmente subversivo (no melhor sentido do termo).

O carnaval é a festa em que o protagonismo pertence ao povo. Porém esta questão é muito mais ampla.

Trata-se de um período marcado por vários protestos. Ao longo do tempo, marchinhas e sambas-enredo foram importantes instrumentos de conscientização.

Nos anos 50, a marchinha “Retrato do Velho” fazia campanha pela popular candidatura de Getúlio Vargas à presidência da República, algo que as elites insistiam em impedir (qualquer semelhança com o atual contexto, não é mera coincidência).

A famosa “Mulata Bossa Nova” é uma homenagem à Vera Lúcia Couto, vítima de racismo durante um desfile de Miss Brasil. Em 1988, a Mangueira cantou o que a hipocrisia cotidiana esconde: denunciou que o negro, apesar de livre do açoite e da senzala, está preso à miséria da favela.

Já o desfile da Paraíso do Tuiuti, há dois anos, conseguiu explicar o que muitos sociólogos ainda não entenderam: escancarou para o grande público todos os recentes ataques à democracia brasileira. Além dos argumentos ideológicos, há as justificativas econômicas contra o carnaval.

Muitos afirmam que, se o poder público cancelasse os festejos carnavalescos, teríamos mais verbas para áreas como saúde e educação. Outra balela. O montante arrecadado nos quatro dias de folia é bastante superior aos recursos investidos.

Portanto, o carnaval é altamente rentável para a coletividade. Evidentemente, não gostar de carnaval é um direito que deve ser respeitado. No entanto, estragar a festa alheia ou militar pelo fim do carnaval não são apenas atos egoístas, significa negar um dos únicos momentos de alegria ao (sofrido) povo brasileiro.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Articulista do Observatório da Imprensa. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV..
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