Francisco Fernandes Ladeira

Mestre e doutorando em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros.

A pandemia de Covid 19 é, acima de tudo, uma pandemia do capitalismo

Se há um aprendizado a ser levado para o mundo pós-pandemia, é a urgência de superarmos o (insustentável sob vários aspectos) modo de produção capitalista.


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A pandemia de Covid-19, que assola o mundo há um ano, é, sobretudo, reflexo do modo de produção capitalista e suas contradições. Não se trata de levantar hipóteses conspiratórias, como, por exemplo, afirmar que o causador dessa moléstia – o coronavírus – foi inventado em laboratório para favorecer a indústria farmacêutica. Porém, a dinâmica da Covid-19 pode ser melhor entendida se a associarmos ao funcionamento do capitalismo.

A China – onde se localiza Wuhan, epicentro da pandemia – foi a última grande fronteira adentrada pelo capital. Historicamente, novas regiões industriais, como Wuhan, são mais vulneráveis às pandemias; seja pelas aglomerações de trabalhadores em condições sanitárias adversas, seja pela expansão do espaço urbano em direção às áreas silvestres. Consequentemente, surgem as condições favoráveis para que determinados vírus migrem de animais selvagens para o ser humano.

Ao sair do território chinês, o coronavírus seguiu o mesmo trajeto das mercadorias que circulam no mercado globalizado. Foi para Europa, passou pela América do Norte, para, enfim, chegar à América do Sul. É emblemático o fato de o continente africano, esquecido no processo de globalização, ter apresentado, relativamente, poucos casos de Covid-19.

Aqui no Brasil, o coronavírus chegou com a elite, pois somente estes indivíduos reúnem as condições favoráveis para viajar pelo mundo. À medida que o patógeno foi circulando entre as classes sociais, revelaram-se as facetas cruéis de nossa desigualdade. Se analisarmos o mapa de São Paulo, facilmente contatamos que os números de contaminações pelo coronavírus coincidem com a segregação social do espaço urbano. Isso significa poucos casos nas áreas nobres e explosão de contaminados nas periferias.

Também o colapso do sistema de saúde não é por acaso. O neoliberalismo – atual paradigma do capitalismo – tem como principal preceito, justamente, diminuir a oferta de serviços públicos. Muitos dizem que a Covid-19 seria uma resposta do planeta às ações antrópicas.

Não compactuo com o chamado “ecofascismo”, que, em sua versão mais extrema, para o “bem da Terra”, defende a extinção do ser humano. Mas é fato que, efeitos das quarentenas decretadas mundo afora – como a diminuição da poluição atmosférica – acendem um alerta. O problema não é homo sapiens em si, mas o modelo de civilização. Se há um aprendizado a ser levado para o mundo pós-pandemia, é a urgência de superarmos o (insustentável sob vários aspectos) modo de produção capitalista.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre e doutorando em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros. .
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