Francisco Fernandes Ladeira

Mestre e doutorando em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros.

Copa América, confrontos discursivos e “posicionamentos líquidos”

Ao trazer a Copa América para o Brasil, após as recusas de Colômbia e Argentina, Bolsonaro quis criar um factoide. Conseguiu. No entanto, se o torneio será o “Pra Frente Brasil” bolsonarista ou se o tiro sairá pela culatra, só o tempo poderá dizer.


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Neste ano, a Copa América – centenário torneio futebolístico que não costuma chamar muito a atenção do público brasileiro –, excepcionalmente, esteve no centro de acaloradas discussões; seja em conversas cotidianas, nas redes sociais ou nos diferentes veículos de imprensa. Não se tratou, necessariamente, de algo relacionado às quatro linhas. As questões em pauta foram o polêmico aceite do governo brasileiro em sediar o evento, os boatos sobre jogadores boicotarem o torneio e a possibilidade de transferência da Copa América para outro país (hipótese que ganhou força após um depoimento do jornalista José Luiz Datena à Rádio Bandeirantes).

Nos veículos midiáticos, os posicionamentos sobre a realização da Copa América foram bem-definidos. Favorável ao evento estavam SBT, Record e Jovem Pan. No outro lado, contrário ao evento, tivemos tanto veículos ligados à direita política – como Rede Globo e Folha de S. Paulo – quanto à esquerda – como Carta Capital, Brasil 247, Revista Fórum e Diário do Centro Mundo.

Se, na imprensa, foi possível visualizar claramente as linhas editoriais sobre a realização da Copa América, nas redes sociais as opiniões sobre essa questão foram mais voláteis. Recorrendo a uma expressão consagrada pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, trataram-se dos “posicionamentos líquidos”; que variaram à medida que surgiam “novos capítulos” na “novela” Copa América.

Nesse sentido, a princípio, três acontecimentos agitaram as redes sociais. O primeiro foi a notícia sobre uma reunião entre os jogadores da seleção brasileira, com o intuito de discutir a participação na Copa América, ocorrida na sexta-feira (4/2). Dois dias depois, houve a anteriormente mencionada fala de José Luiz Datena sobre a possibilidade de não realização da Copa América no Brasil. Já o terceiro fator foi a hipótese (na verdade, boato) que os jogadores brasileiros boicotariam a competição sul-americana.

Esses três pontos foram suficientes para incentivar o exército virtual bolsonarista a atacar atletas e comissão técnica da seleção brasileira. O técnico Tite ganhou a alcunha "PTite", por supostamente incentivar os jogadores a não disputarem a Copa América, para beneficiar a futura candidatura Lula à presidência da República e favorecer a Rede Globo (que perdeu os direitos de transmissão da Copa América para o SBT). Um internauta, mais exaltado, chegou a criar o termo “GloboLula”, em referência a uma (improvável) aliança contrária a Bolsonaro, feita entre o ex-presidente e a emissora da família Marinho. De repente, os jogadores da seleção brasileira viraram inimigos públicos do bolsonarismo, ou seja, “comunistas”.

Do outro lado do espectro ideológico, na esquerda, tivemos a (ingênua) crença de que os jogadores brasileiros, até então despolitizados e alienados, seriam paladinos da luta contra Bolsonaro. Tite virou uma espécie de “João Saldanha contemporâneo”; Neymar (bolsonarista de carteirinha) se transformou no “Novo Doutor Sócrates”. Houve até quem dissesse que os setores progressistas, enfim, recuperariam a camisa verde e amarelo (associada à direita desde às manifestações pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff).

No entanto, ambos os posicionamentos mudaram drasticamente quando, já na segunda-feira (7/6), surgiu a seguinte manchete: “jogadores decidiram jogar a Copa América”. Para os bolsonaristas, os atletas da seleção brasileira, em um dia, passaram de “comunistas” a “patriotas”. Por sua vez, a esquerda acordou de seu sonho efêmero. Jogadores querem dinheiro e postagens no Instagram, não revolução e protestos.

Após o jogo contra o Paraguai, na terça-feira (8/7) aconteceu um dos momentos mais aguardados da “novela” Copa América”, quando atletas e comissão técnica da seleção brasileira divulgaram um confuso manifesto, em que se diziam contrários à organização da Copa América no Brasil, mas garantiam presença na competição. Mas, muito provavelmente, essa inusitada trama futebolística ainda nos revelará surpresas. Opiniões poderão ser mudadas de acordo com as circunstâncias. Lembrando o anteriormente citado Bauman, na “modernidade líquida”, tudo é fugaz.

Fato é que, ao trazer a Copa América para o Brasil, após as recusas de Colômbia e Argentina, Bolsonaro quis criar um factoide. Conseguiu. No entanto, se o torneio será o “Pra Frente Brasil” bolsonarista ou se o tiro sairá pela culatra, só o tempo poderá dizer. Aguardemos as cenas do próximo capítulo.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre e doutorando em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros. .
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