Francisco Fernandes Ladeira

Mestre e doutorando em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros.

Daniel Silveira, direita e idiotas úteis

A direita brasileira recorre constantemente aos chamados "idiotas úteis" para a realização de determinadas tarefas sujas, que, por motivos pontuais, seus principais nomes não podem executar. Após cumprirem suas funções, os idiotas úteis são estrategicamente rifados, sem nenhum tipo de constrangimento.


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Nas últimas décadas, a direita brasileira tem recorrido constantemente aos chamados "idiotas úteis" para a realização de determinadas tarefas sujas, que, por motivos pontuais, seus principais nomes não podem executar. Após cumprirem suas funções, os idiotas úteis são estrategicamente rifados pela direita, sem nenhum tipo de constrangimento.

Estes foram os casos de Carlos Lacerda, Fernando Collor de Melo, Eduardo Cunha e, recentemente, de Sara Winter e Daniel Silveira.

Nos anos 50 e 60, o jornalista e político Carlos Lacerda (uma espécie de Arnaldo Jabor da época) tornou-se nacionalmente conhecido por dedicar sua verborragia ideológica para atacar os governos nacionalistas de Getúlio Vargas e João Goulart.

Proprietário de um jornal de grande circulação (Tribuna da Imprensa) e governador de uma importante unidade federativa (a antiga Guanabara), Lacerda apoiou o golpe de 1964 acreditando que, um ano depois, os militares promoveriam eleições livres, possibilitando que ele, enfim, realizasse o sonho de chegar ao Palácio do Planalto.

Lembrando um dito popular: "deu com os burros n'água". Lacerda não apenas viu seu projeto presidencial ser frustrado, como também teve seu mandato de governador cassado e, para completar o "serviço", foi preso pelos mesmos militares que ajudou a colocar no poder.

Em 1989, na primeira eleição direta para presidência da República após o regime militar, Fernando Collor – o "Caçador de Marajás” – foi convocado para impedir que a esquerda chegasse ao poder – seja com Brizola, seja com Lula (desde aquela época, "o importante é tirar o PT").

No entanto, lembrando as palavras de Altamiro Borges, pouco tempo depois, quando o mandato presidencial do Caçador de Marajás afundava e colocava em perigo a aplicação do receituário neoliberal (para qual foi eleito), a direita, sobretudo a grande mídia, não titubeou em descartá-lo, engrossando o coro das ruas pelo seu impeachment.

Quando fez seu famoso apelo “não me deixem só”, já era tarde. Collor estava abandonado. Não há fidelidade política na direita.

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Já na década passada, o principal idiota útil foi, sem dúvida, o ex-deputado federal Eduardo Cunha.

Conhecido por suas inúmeras falcatruas e conchavos, Cunha presidiu a histórica sessão da Câmaras dos Deputados responsável pelo impeachment de Dilma Rousseff. Aliás, é importante lembrar que ele fora eleito presidente dessa casa legislativa somente para inviabilizar o mandato do Executivo.

Concretizado o golpe, Cunha, assim como Lacerda, foi preso. Seu papel sujo na história já havia sido desempenhado com êxito.

No atual contexto de ascensão da extrema-direita, o papel de idiota útil vai para chamado "exército bolsonarista", disposto a fazer todo tipo de sacrifício pelo "mito".

O modus operandi funciona da seguinte maneira: Bolsonaro toca o berrante (ou seja, faz seus discursos polêmicos anti-vacina, compartilha fake news ou ataca outros poderes republicanos) e o gado, por sua vez, atende automaticamente, replicando tudo o que o mito diz.

Só que, diferentemente de seus fiéis seguidores, Bolsonaro é presidente – pelo menos, por enquanto, tem "as costas largas". Suas falas ainda não são passíveis de sanções.

Recentemente, a extremista Sara Winter e o deputado Daniel Silveira imitaram o mito, atacaram o STF e se deram mal. Logo, tiveram os destinos mais prováveis dos idiotas úteis: acabaram presos.

Diga-se de passagem, o parlamentar bolsonarista tem sido um idiota tão útil, que a repercussão de sua prisão tem servido como cortina de fumaça para desviar o foco da falta de vacinas em nosso país.

Mas, não sejamos “inocentes úteis”, o Supremo não tem nada de democrático.

Como bem apontou Jessé Souza, em sua rede social, "o caso Daniel Silveira mostra um raio x do Brasil pós golpe. Quando se destrói a Constituição, o que temos são instituições lutando umas contra as outras por sobrevivência e poder. A ação do STF [prisão de Silveira] foi de mera defesa corporativa. Daí a unanimidade".

As clássicas palavras de Romero Jucá para definir o golpe de 2016 já diziam: "um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo".

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Para finalizar este texto, é importante frisar que também existem os idiotas úteis anônimos, como os milhares de coxinhas de classe média que vestiram verde e amarelo e dançaram em torno do pato da Fiesp, no contexto político que desencadeou no golpe de 2016.

Por falar nisso, a queda de Dilma Rousseff também contou com o apoio de importantes setores da esquerda que, na época, acreditavam ser mais importante engrossar a campanha Cavalo de Troia "Não vai ter Copa", escrever colunas em jornais da grande imprensa simplesmente para atacar o PT e protestar contra o ajuste fiscal, em vez de lutar pela permanência de um governo democraticamente eleito.

Em suma, dependendo das circunstâncias, o idiota útil pode estar em ambos os espectros ideológicos.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre e doutorando em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros. .
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