Francisco Fernandes Ladeira

Mestre e doutorando em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros.

Esquerda brasileira e Cavalos de Troia

Se a esquerda, ou pelo menos parte dela, fosse uma pessoa, seria daquelas que caem na conversa de todo tipo de picareta


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Em nosso cotidiano, é comum ouvirmos a expressão "presente de grego" como referência ao recebimento de algum presente que traz enormes prejuízos a quem o recebe. A origem do terno remete à histórica guerra entre gregos e troianos, quando estes receberam daqueles um grande cavalo de madeira. No entanto, no interior desse "presente" estavam guerreiros gregos que, posteriormente, dominariam a cidade de Troia.

Não estamos na antiguidade clássica, mas, nesses dois anos e meio de (des)governo Bolsonaro, parte da esquerda brasileira tem se especializado em comprar Cavalos de Troia. Estes presentes de grego contemporâneos nada mais são do que direitistas que, por discordarem minimamente do bolsonarismo, passam a ser celebrados como heróis por setores esquerdistas. É fato: perto de Bolsonaro e sua turma, até Mussolini parece progressista.

O primeiro "Cavalo de Troia" adotado pela esquerda foi Tábata do Amaral, deputada federal pelo PDT paulista, também conhecida por "Batata Neoliberal". No primeiro semestre de 2019, portanto logo no início do mandato bolsonarista, a jovem parlamentar ficou nacionalmente conhecida depois de uma discussão que teve com o então ministro da Educação Ricardo Vélez Rodríguez.

Na ocasião, com um discurso repleto de clichês do léxico neoliberal, Tábata cobrava de Vélez melhores propostas para a área educacional. Isso foi suficiente para parte da esquerda saudar a moça como a maior progressista da história do parlamento brasileiro.

Contudo, bastou um breve levantamento do currículo de Tábata para constatar que, por trás dela, estava nada mais nada menos do que o empresário Jorge Paulo Lemann, um dos maiores interessados, justamente, no sucateamento do ensino público em benefício da educação pública. Nem é preciso mencionar que, meses depois de discutir com Vélez, Tábata votou a favor da Reforma da Previdência.

Evidentemente, ela não poderia contrariar aos interesses do patrão. Justiça seja feita, Tábata do Amaral nunca "traiu a esquerda", simplesmente porque ela nunca foi de esquerda.

Discutir com bolsonarista, em rede nacional, parece ser o pré-requisito para ser um Cavalo de Troia para esquerda. Não por acaso, a comentarista política da CNN Brasil Gabriela Prioli ganhou o status de "progressista" após bater boca com Tomé Abduch (uma espécie de mistura de João Amoêdo com Olavo de Carvalho). Amiga de Leandro Karnal, Priolli é a típica "isentona", se definindo como "nem de esquerda, nem de direita", o que, na prática, é um eufemismo para direitista enrustido. Sem falar as várias críticas feitas por ela ao ex-presidente Lula, no melhor estilo classe média moralista.

Antes que alguma identitária diga que nessa lista só há mulher, cito o terceiro Cavalo de Troia, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta.

Só o fato de Mandetta ser do DEM (partido que, se formos a fundo em sua árvore genealógica, encontraremos o primeiro Senhor de Escravos no Brasil) já seria condição mais do que suficiente para nunca o qualificarmos como progressista.

Saudado como grande opositor ao negacionismo bolsonarista, ao contrário do que muitos podem pensar, Mandetta nunca foi a favor da saúde pública. Como parlamentar, votou pelo golpe de 2016, pela PEC do fim do mundo e trabalhou pelo sucateamento do SUS. Como ministro, foi um dos responsáveis pela expulsão dos médicos cubanos que atuavam no programa Mais Médicos.

No atual contexto, ser contra o negacionismo (o que nada mais é do que observar o óbvio) já faz alguém um Cavalo de Troia. Este é o recente caso da médica Luana Araújo.

Sendo uma espécie de "Tábata do Amaral da Saúde", Luana tem sido celebrada nas redes sociais como "arauto da ciência". Só fato de ser cogitada a participar do governo bolsonarista comprava que ela é direitista. Seu histórico ainda tem elogios a primeira-dama Michelle Bolsonaro e defesa da volta às aulas presenciais no auge da pandemia de Covid-19. Em política não existe "ex-direita", tampouco "bolsonarista arrependido".

Lembrando Bauman, na chamada "modernidade líquida", em que praticamente tudo é efêmero, é bem provável que, em breve, surgirá outro Cavalo de Troia. Se a esquerda, ou pelo menos parte dela, fosse uma pessoa, seria daquelas que caem na conversa de todo tipo de picareta.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre e doutorando em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros. .
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