Francisco Fernandes Ladeira

Mestre e doutorando em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros.

Personalização do noticiário político leva a interpretações equivocadas

A análise da atual situação brasileira está além da dicotomia Doria versus Bolsonaro, pois a arena política é muito mais complexa do que meras personalidades individuais ou do que a rivalidade entre dois homens públicos, que, em essência, estão do mesmo lado do espectro ideológico.


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Corriqueiramente, nos noticiários da grande imprensa brasileira, a política é personalizada. Isso significa que nossos principais veículos de comunicação, ao invés de analisarem uma determinada conjuntura a partir de propostas e ações políticas, preferem focar em personalidades de homens e mulheres que atuam na esfera pública.

Esse tipo de linha editorial tende a gerar interpretações equivocadas e reducionistas sobre a realidade, como, por exemplo, considerar os desdobramentos do atentado de 11 de setembro como uma disputa entre Bush e Bin Laden, limitar as discussões sobre o programa nuclear norte-coreano à troca de farpas entre Trump e Kim Jong-un ou, conforme pensam os identitários, acreditar que Dilma Rousseff sofreu um processo de impeachment apenas pelo fato de ser mulher.

Nesse sentido, pode-se dizer que os noticiários políticos transformaram o plano de vacinação contra a Covid-19 no Brasil (ou a sua ausência) em um conflito entre dois personagens. De um lado, temos como protagonista o governador de São Paulo, João Dória. De outro lado, cabe ao presidente da República, Jair Bolsonaro, o papel de antagonista.

Desse modo, para muitos de nossos compatriotas, vacina contra Covid-19 e Dória viraram quase sinônimos. De fato, o próprio governador paulista, de forma extremamente astuta, construiu todo um cenário para se apresentar como o homem que trouxe a vacina para o Brasil, uma espécie de paladino na luta contra a pandemia do coronavírus.

No entanto, ele não seria tão bem-sucedido em sua estratégia de marketing se não contasse com o apoio da mídia hegemônica, tanto a televisiva, quanto a impressa. Nas principais emissoras de televisão, Doria tem sido presença constante, a partir representações bastante positivas. Já uma recente capa da revista Isto é! estampou a seguinte mensagem: “Chegou a vacina brasileira pela persistência de um homem: João Doria”.

Essa (estratégica) associação entre Doria e vacina tem levado setores da esquerda brasileira a ingenuamente aderirem a tese do “mal menor”, cogitando, inclusive, apoiar o governador paulista em uma possível eleição presidencial disputada contra Bolsonaro no ano que vem.

Por outro lado, nas redes sociais, negacionistas e adeptos de movimentos antivacina – à direita e à esquerda – atacam vacina e João Dória como se fossem sinônimos. Ou seja, se você é contrário ao governador de São Paulo, automaticamente também deverá ser contrário a vacina. Não há outra alternativa.

Evidentemente, é possível ser favorável à vacinação, sem, no entanto, ser partidário ou elogiar copiosamente a figura de João Dória. Isso não significa embarcar na campanha presidencial precoce do governador paulista ou algo similar. Não existe “vacina do Dória” ou de propriedade de qualquer outro político, pois, ao contrário das simplificações midiáticas, imunizantes não são obras individuais, mas resultados de esforços coletivos de cientistas do passado e do presente.

Também é importante lembrar que, criticar o misancene do governador paulista não significa estar do lado de Bolsonaro (o que seria um completo absurdo). Em suma, a análise da atual situação brasileira está além da dicotomia Doria versus Bolsonaro, pois a arena política é muito mais complexa do que meras personalidades individuais ou do que a rivalidade entre dois homens públicos, que, em essência, estão do mesmo lado do espectro ideológico.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre e doutorando em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros. .
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